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terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O livro dos Mortos e a Pirâmide de Gizé

 O livro dos mortos e a pirâmide de Gizé

A Grande Pirâmide de Gizé, foi a única que foi construída, desde o fundamento até o cimo, com a precisão requerida por um instrumento, uma jóia e que encerra para toda a eternidade, em cada uma de suas medidas, as correspondências essenciais com o Universo.  Todas as outras pirâmides eram reproduções grosseiras da forma geral da Grande Pirâmide, sem ter dela nem a precisão, nem a execução perfeitas.

Este monumento eterno, além de seu papel de resumir conhecimentos astronômicos, era destinado a servir de santuário para o culto solar, no qual se realizava o Mistério da mais alta Iniciação.

O corredor de entrada desce num ângulo de aproximadamente 26º.  Este corredor vai de encontro a um outro que sobe segundo um ângulo sensivelmente igual.  Este se divide, a certa altura, em dois corredores que levam, um a uma galeria no teto elevado, chamada : "A GRANDE GALERIA", a qual conduz à "CÂMARA DO REI", e outra horizontal, a uma outra câmara conhecida sob o nome de "CÂMARA DA RAINHA".

Se compararmos a disposição destes corredores com as passagens figuradas sobre as    pinturas murais que representam o trajeto do sol através do "HADES", não se pode deixar de notar pontos comuns.

A entrada simboliza a PORTA DOS INFERNOS onde o morto desce, desaparecendo na      obscuridade entre as montanhas de Abidos.  A descida prossegue até o encontro com o      CORREDOR ASCENDENTE.  É a hora do julgamento.  Este, em razão dos pecados cometidos      em sua existência encarnada, é condenado à destruição, ou, como diz o texto do "Am-Duat"     "vai para a região de Soker" (o deus da terra), desliza ao longo da descida que representa o      falso caminho RESTAU.  Ele cai no fosso e é tragado sob o monte de areia de Soker. Aquele, que ao contrário, provou por sua vida direita que é digno da vida eterna, merece a recompensa da ressurreição e se eleva pela passagem ascendente até a nova bifurcação.  A passagem ascendente  é chamada no LIVRO DOS MORTOS: "Caminho da Verdade nas Trevas".  Quando chega a este ponto, lhe é deixada a escolha. A porta que se abre para o corredor horizontal representa a porta HADES no mau caminho RESTAU.  Este corredor conduz à câmara das "coisas secretas de RESTAU", através da qual o deus (preparando sua ressurreição) não passa, mas (os que estão nesta câmara) ouvem sua voz". (Am-Duat-4ªdiv.)

O LIVRO DOS MORTOS chama esta câmara: "CÂMARA DO 2º NASCIMENTO". Isto significa que, apesar de aqueles que escolheram este caminho tenham renunciado à elevação suprema      predestinada, lhes é permitido "ouvir a voz do Logos" e eles estão conseqüentemente     capacitados a reparar seu erro, implorando a Deus que lhes conceda a permissão para alcançar o caminho verdadeiro.

Resta "A GRANDE GALERIA", chamada no LIVRO DOS MORTOS: "O CAMINHO DA VERDADE PARA A LUZ".  É a ascensão para o lugar da ressurreição.  Ele representa o trajeto do sol se elevando para o lugar de seu nascimento nas montanhas orientais.  Este lugar misterioso do nascimento do Sol é simbolizado pela "CÂMARA DO REI".  O teto da passagem horizontal que conduz a esta câmara é rebaixado por três enormes pedras que obrigam aquele que quer penetrar na câmara a abaixar-se muito, por três vezes.  Esta passagem é chamada no LIVRO DOS MORTOS: "VESTÍBULO DO TRÍPLICE VÉU".  Esta passagem impõe o último obstáculo antes da alma ser definitivamente admitida no lugar da ressurreição, que o LIVRO DOS MORTOS chama de: "A CÂMARA DA TUMBA ABERTA".  Um sarcófago de granito de bela feitura se encontra na CÂMARA DO REI.  Não há tampa para esta "TUMBA ABERTA"; ela jamais foi utilizada para conter o morto e jamais foi destinada a este uso.

Um outro traço importante que caracteriza a Pirâmide de Gizé, é seu perfeito sistema de ventilação. Nenhuma outra pirâmide, nenhuma outra tumba do Egito, foi provida de ventilação de espécie alguma.  E isto é perfeitamente compreensível, pois as tumbas eram feitas para conter corpos mortos que "não respiram".  Nenhum ser vivo podia penetrar numa tumba após os funerais, pois ela era selada e sua entrada obstruída por pedras; ela se tornava um "lugar secreto", a morada do morto.  O simples fato da existência de um sistema de ventilação instalado na Grande Pirâmide deveria ter chamado a atenção e mostrar que este monumento não era destinado aos mortos, mas ao uso de pessoas vivas, que tinham necessidade de respirar.é preciso ter presente na mente que as representações do Duat foram compostas pelos      sacerdotes da época tebena (XI e XX Dinastia) quando o dogma foi tornado muito complexo.

  O jogo citado no livro dos mortos: SENAT

É um dos jogos da família do gamão, assim como a Tábula. Segundo os folhetos dos "Jogos da Terra", teria sido encontrado um tabuleiro deste jogo na gruta de Abidos, no Egito, que foi datado de 5500 anos!

Outra obra, cita que um riquíssimo tabuleiro foi encontrado no túmulo de Tutankâmon, tabuleiro esse de ébano e marfim, com as peças em ouro.

Os desenhos existentes no tabuleiro teriam utilidade para os mortos no seu caminho na outra vida. O Senat (ou Senet) era conhecido como "Jogo de passagem da alma para outro mundo". Tanto é verdade, que é citado no conhecidíssimo "Livro dos Mortos" egípcio. O jogo simbolizaria a luta da alma do jogador contra o mal ou com as forças inimigas, que vagam no Nada. As peças de cada jogador são chamadas de "dançarinos", enquanto os "dados", são chamados de "dedos". Aqueles encontrados no túmulo de Tutankâmon, tem a forma de dedos humanos, com unhas esculpidas.

No túmulo de um sacerdote egípcio, morto no século IV a.C, encontra-se uma cena deste sacerdote jogando Senat, com a inscrição: "o coração em delícia, num jogo com amigos após o almoço, aguardando o momento de refrescar-se no salão da cerveja" Parece que, desde aquela época, jogo combina com bebida...

Além do tabuleiro simples da "Jogos da Terra", em papelão, existe o tabuleiro mais elaborado, de madeira, da "Origem", com os dados em forma de "dedos".

O livro dos mortos e os talismãs

Na civilização egípcia, cuja religiosidade sempre esteve atrelada à magia e à alquimia, que o uso de amuletos mais se difundiu na antigüidade. Num sem-número de sepulturas pré-dinásticas do Egito, tais objetos, geralmente feitos em xisto verde, foram fartamente encontrados. Popularizaram-se gradativamente a partir de 3.000 a.C., ao longo da era das dinastias, quando passaram a ser esculpidos sob diversas formas de divindades (como o olho de Hórus), animais (como o abutre e o boi), insetos (o mais comum era o escaravelho) ou ainda sob o molde de coração, cruz ansada, cetro, colar, etc.

Não raro, tais artefatos, remotamente datados, traziam ainda inscrições com palavras de poder, obviamente talhadas por magos sacerdotes, com o intuito de serem proferidas pelo morto em sua vida no além-túmulo. Muitas dessas imprecações, mais tarde, foram inseridas no Livro dos Mortos, em seções especificamente destinadas a exortar o mal e provar a dignidade da alma perante o tribunal de Osíris.

Do Egito, o uso dos amuletos difundiu-se pelo mundo antigo, impres- sionando os persas e os hebreus, que os adotaram, os gregos e, a partir destes, os romanos. Os árabes chamaram esses objetos de tilasmi, que significa tanto “sortilégio” quanto “aquilo que se veste ou se porta”, originando-se daí o nome talismã.  

O livro na preparação para a vida futura

Nenhuma crença foi tão marcante na sociedade egípcia, ao longo de cinco mil anos, quanto a da vida após a morte. Nos túmulos pré-dinásticos, simples covas circulares cobertas de madeira, encimada por uma pilha de rochas e sedimentos, o morto era inumado em posição fetal, com a face voltada para o Oeste. Ao seu redor, eram depositados vasos cerâmicos, facas de sílex, adornos, entre outros objetos (El-Mahdy, 1995: 118). Tais evidências refletem, respectivamente, o renascimento e a preocupação com o bem estar do morto no outro mundo. Em épocas dinásticas, notadamente após o Primeiro Período Intermediário, a vida além-túmulo seria acessível a todos os egípcios que providenciassem a mumificação de seus corpos, procedimento este extremamente necessário para a sobrevivência das demais partes que formavam o indivíduo.

Igualmente importante era a preparação de um enxoval funerário, o qual incluía, além de alimentos e bebidas, o mobiliário que o falecido utilizou durante a vida (roupas, cosméticos, jóias, móveis ferramentas, etc.), bem como uma série de outros bens especialmente confeccionados para o uso na vida futura (Budge, 1995: 168).

Segundo o Livro dos Mortos, após o funeral, o akh do morto dirigia-se ao horizonte ocidental, onde ficava a Sala do Julgamento presidida pelo deus Osíris (El-Mahdy, 1995: 154). Perante quarenta e dois deuses, o morto declarava sua inocência, enquanto em uma balança o seu coração (representação da consciência) era pesado contra a pena da deusa Maat (representação do equilíbrio), com o objetivo de verificar que o morto não houvesse mesmo cometido as quarenta e duas ações que contavam da “confissão negativa” (encantamento n° 125), como vemos abaixo: 

“Ó tu, cujos passos são longos, que vens de Heliópolis, eu não menti.” e,

“Ó tu, que és abraçado pelo fogo, que vens de Khereha, eu não roubei.” (Faulkner, 1993: 31)

a razão destas ações serem negadas demonstra que as mesmas faziam parte do cotidiano egípcio. Os próprios símbolos formadores das palavras “mentira e “roubo” refletem igualmente seu significado. Na palavra mentira, grg, o determinativo é um pequeno pássaro que representa ações pequenas ou mundanas; e na palavra roubo, awAi, o determinativo é um homem batendo com um bastão, sem dúvida uma ação repressora ou condenatória, o que demonstra que extraía-se confissões de quem roubava através de bastonadas nas palmas das mãos e nas solas dos pés.

O morto, caso fosse considerado transgressor de alguma das quarenta e duas ações condenadas, fato que nunca aparece representado nas vinhetas dos papiros, teria seu akh devorado por uma criatura híbrida chamada Ammit, a “engolidora de almas”. Se fosse considerado puro, tornar-se-ia um justificado, mAa-xrw, e passaria a viver eternamente no reino do deus Osíris. 

A preparação para uma vida futura, segundo a religião egípcia, devia incluir nos túmulos objetos que o morto iria reutilizar. Tais objetos foram o principal alvo da atividade dos saqueadores. Na tentativa de contê-los, antes mesmo dos saques serem efetuados, sua prática já era condenada pela ideologia religiosa. A arquitetura funerária foi modificada, as tumbas imponentes foram substituídas pelos discretos hipogeus, construídos longe dos templos funerários.

Extraído de http://br.geocities.com/progenie_apocalipse/

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

História de Toth ou Tot


Nome de TotExcelso lótus de névoas diamantinas, irresistivelmente perfumado pelo mais místico delirar da poesia, que um ósculo da Via Láctea, lascivamente eivado de feitiçaria pagã, semeara nos lábios constelados do Infinito, a Lua saciava a sede de Tot com o orvalho de magia cósmica que as pétalas de seu corpo astral rociava, docemente. Seu refulgente olhar de feitiços de prata, supremo vidente dos enigmáticos oráculos do Universo, convidava-o a colher o fruto de imortalidade que abençoava o seu paraíso de luz imaculada, etereamente recamado de nascentes de sapiência ancestral, que se ofereciam, na magnificência de seu esplendor secular, a todos aqueles que se proponham a errar pela noite da vida, guiados pela estrela peregrina do conhecimento, eterna pedra filosofal, esculpida por Tot no apogeu da Criação, que convertia as trevas plúmbeas da ignorância, qual abismo onde somente o caos se manifestava, na luz transcendental, inebriante brisa de ouro, que acariciava o nascimento do jardim da humanidade, a fim de nele depositar a semente da sabedoria divina. Com efeito, Tot era proclamado, pelos fervorosos teólogos de Hermopólis, eterno imo do seu culto, como o lídimo Ourives da Criação, que, qual demiurgo universal incarnara uma íbis, a fim de chocar o ovo do mundo, tingindo de seguida na tela do universo vítreo, a excelso pintura da vida, numa obra de arte ímpar apenas concebida pela magnificência do som de sua voz. 

Esta cosmogonia esculpe no ouro da sua identidade a personificação da inteligência divina, imprescindível naquele que não era senão uma deidade criadora e auto- criada, indigitando-o assim líder da Ogdóade de Hermopólis, um grupo de oito deuses, mais exactamente de quatro casais, sendo os homens facilmente reconhecidos através das suas cabeças de rã, em contraste com as suas esposas que ostentavam cabeças de serpente. Este grupo divino incarnava os pilares que haviam sustido a fundação do Universo: o casal original, isto é, aquele que Nun, personificação do oceano primordial, e Nunet, espaço celeste suspenso sob o abismo, constituíam; o casal Hehu e Hehet, ou seja, os espaços imensuráveis e impossíveis de destinguir subjacentes ao caos; o casal Keku e Keket, fruto das trevas e obscuridade; e por fim Ámon e Amaunet, símbolos do desconhecido, ou seja, dos enigmas que haviam nimbado o caos. A cidade edificada em honra destes oito deuses, actualmente denominada de El- Achmunein, era conhecida primitivamente por Khemenu, ou, na realidade, “A cidade dos oito deuses”. Todavia, a identificação vinculada entre Tot e Hermes, permitiu aos gregos apelidarem-na de Hermopólis, epíteto que se difundiu e estabeleceu através do tempo e das civilizações. Não obstante a noite pejada de obscuridade que vela o seu nascimento (determinadas fontes afirmam que Tot nasceu do crânio de Set, enquanto outras proclamam que o deus- íbis floresceu do coração do criador num momento de melancolia), indubitável é a sublimidade da chama de sabedoria divina, ateada pela suas invejáveis sagacidade e perícia, que dança na alma do arguto deus- íbis. Como soberano do fecundo reino do conhecimento, Tot sentiu ser vital a difusão dos insignes tesouros que este em sua imensidão guardava, pelo que abraçou a resolução de inventar um instrumento apto a garantir a transmissão perpétua das ciências por ele cultivadas: a escrita. Qual primeiro raio de luz bailando nos jardins dos céus, a escrita fende o luto da noite, a fim de passear pelas fragrantes rosas dos hieróglifos, de brincar na árvore da comunicação, que o Verbo e a Palavra, doce frutos dos deuses, coroavam num halo de fastígio. 

A poesia, primeira manhã do mundo das almas, é cálice de Sol vertido pela taça de sua sapiência. Os livros, alimento do intelecto, seu testemunho. Em harmonia com esta ideologia, os Egípcios aludiam aos seus hieróglifos como medu- netjer, ou seja, “palavras do deus”, numa flagrante oblação ao deus- íbis. Enquanto fautor da escrita, perpétua arauta do pensamento, Tot conquistou o epíteto de neb medu- netjer, em português “O Soberano das Palavras Mágicas”. Ao integrar a elite do panteão egípcio, Tot converte-se em depositário das confidências do excelso soberano dos deuses, equivalente ao faraó na terra, garantindo assim a denominação de “Ré disse; Tot escreveu”. Não constitui, deste modo, qualquer surpresa constatar que, num ápice, Tot alcançou a preeminente posição de guardião dos arquivos divinos, emissário e escriba dos deuses. No seio da comunidade celestial, é o deus- íbis quem abraça a incumbência de permitir que a praia de luz, formada pelos cristais de luz das etéreas almas dos deuses egípcios, seja docemente banhada pelo mar da harmonia cósmica. Por conseguinte, era ele que, através da análise das inúmeras regras ditadas pelo criador na fundação do Universo, procura solucionar todas as querelas e desaires semeados na sociedade dos céus. Desta forma, buscando a aplicação das leis estabelecidas aquando da excelsa matriz da vida, os deuses reuniam-se em assembleias, marcando o início de morosos julgamentos que, com frequência, se prolongavam durante alguns anos. Escutadas e interpretadas todas as vozes envolvidas nos debates e recontros, Tot evoca a sua sapiência e sela o julgamento com uma decisão apta a implantar a paz, onde outrora o caos reinara. Resolução alguma deverá sem perpetrada sem o consentimento do escriba divino.

Tot e SétiA polivalência intelectual de Tot faculta-lhe a prerrogativa de invadir e conquistar todo o reino das ciências, pelo que ele é igualmente o deus das matemáticas, o calculador primordial e imbatível. Dominando a criatividade e a razão, o deus- íbis ousou estipular sozinho os limites dos nomos e as fronteiras das terras, concebendo assim “o ordenamento do País Duplo (Egipto) e a organização das províncias; e não hesitou em erguer todos os santuários dos deuses, dado possuir o monopólio do traçado e das plantas. Além de oferecer-lhe o título de “Arquitecto Divino”, esta liberdade tornou-o também patrono dos escribas, dos médicos, dos mágicos e dos arquitectos. Vestido pelo sumptuoso cetim de prata que o luar tece na magia do Infinito, Tot preside igualmente ao festim de feitiços e sonhos, oferecido pela noite no seu excelso palácio de abismos constelados. Incarnação da Lua, eterna maga de fantasias pagãs, Tot fendia a mortalha de trevas e pez que sufocava a essência da noite com a luz imaculada de sua adaga de feitiçaria divina. No cosmos do tempo, a intemporal estrela de um mito imortaliza com seu fulgir ofuscante o incidente que inspirou ao deus- íbis a poesia da Lua. Segundo este, Ré, cujo coração exânime, dilacerado pelos infindáveis conflitos da humanidade, naufragava nos mares da exaustão do sentir e do querer, cede à tentação de abdicar parcialmente da sua existência na terra, em prole de uma vida serena nas alturas celestes. O seu auto- exílio lança o tempo no abismo do caos, visto que doravante o astro- rei somente abençoaria a os seus súbditos terrenos durante o dia, abandonando-os, por conseguinte, às trevas e ao caos, no decorrer da sua viagem pelo mundo subterrâneo. Receando pela sorte da alma humana, Ré evoca então Tot, a fim de o indigitar seu substituto. O poderoso regente dos céus proclamou então: “ Farei com que rodeies os dois céus com tua beleza e claridade. E assim nascerá a Lua”. O seu passeio compassado pelos vales dos céus privilegiou-o com outro dos céus díspares epítetos: “Touro entre as estrelas”. Esta vertente de substituto do Sol durante a noite justificou igualmente que, durante a Época Baixa, o apelidassem de “Áton de prata”. 

Tornado Senhor do Tempo e das Estrelas, Tot ou “Governante dos anos” sonhara igualmente o calendário, permitindo uma distinção entre os dias, os meses, as estações e os anos. De facto, o deus íbis cometeu a audácia de reinventar o conceito de tempo, a fim de prestar auxílio à deusa Nut, incarnação do céu, que, seu o consentimento de Ré se havia unido a Geb, personificação da terra, em lustrais núpcias divinas, fomentando assim a ira do regente supremo dos deuses, que, irado, coagiu Chu a apartar os dois amantes clandestinos, num ímpio desaire: Nut, grávida de cinco meses, jamais poderia dar à luz no espaço de tempo compreendido pelo calendário oficial. Por conseguinte, Tot, saboreando o néctar de criatividade que resvalava do fruto de sua extasiante inteligência, propôs-se a jogar aos dados com a lua, na ânsia de obter cinco dias suplementares, isto é, a septuagésima segunda parte da sua luz, que acolhessem o nascimento dos cinco filhos de Nut (Osíris, Set, Ísis, Néftis, e Horús, o Antigo). Outra flor de míticos encantamentos, vogando sem rumo na corrente do translúcido Nilo da mitologia egípcia, insinua-se em nossos sentidos, através do seu perfume de quimeras ancestrais, convidando-nos a presenciar um dos mais ferozes recontros que opôs Hórus a seu tio Set e que culminou com o dilacerar do olho esquerdo do deus falcão (personificação da Lua, em contraste com o olho direito que simbolizava o Sol). Prontamente, Tot ofereceu-lhe os seus préstimos, restaurando a visão a Hórus, ao substituir o olho dilacerado pelo amuleto uadjet, o que restituiu a harmonia ao cosmos e a magia ao deus- falcão. 

Coroado pela sua beatífica sabedoria regente do generoso éden do conhecimento, Tot esculpira o seu trono na prata da Lua e o seu ceptro na jóia rara da magia suprema. Efectivamente, encontramos em Hermopólis, sua morada eterna, um tempo luxuriante, cujas criptas acolhiam papiros místicos, redigidos por aquele que constituíra o primeiro dos mágicos, venerado e imitado por todos os seus devotos discípulos. Estes, na ânsia de desbravarem a floresta proibida do conhecimento, em cujo coração pulsava a essência da magia, elevavam preces a Ré, crentes de que este conduziria Tot até eles: “Ó velho que rejuvenesceu no seu tempo, velho que se tornou criança, possas tu fazer com que Tot venha até mim, respondendo ao meu chamado”. A mitologia egípcia atribui-lhe a autoria das díspares fórmulas mágicas e textos simbólicos que o morto, ou melhor, o maé- kheru (justificado) ou maet- kheru (justificada) pronunciavam ao franquear as portas do Além e, mais exactamente, no decorrer do julgamento celestial, presidido por Osíris. Suspiros do passado confiam-nos que Tot legou também à eternidade um livro de magia e quarenta e dois volumes, que testemunhavam, sustinham e renovavam toda a magia do cosmos. Por conseguinte, prestar culto ao deus- íbis revelava-se incontornável e, na realidade, capital, para qualquer sábio. De facto, todos os escribas que ornavam de sabedoria a alma do Egipto, desde os mais humildes aprendizes, ou em egípcio, sebati, ao mais proeminente mestre (sebá) ritualizavam a sua devoção, derramando algumas gotas de tinta numa notória oblação a Tot. 

Por último, Tot tece, juntamente com inúmeras outras deidades, o destino dos inumados no Além, exercendo a função de escriba divino e arauto dos deuses fúnebres. Desta forma, é ele quem introduz o defunto no recinto celestial onde será julgado, para, após a pesagem do coração deste, registar, nas tabuinhas sagradas, o veredicto proferido por Maet. Os sonhos de amor que a existência semeava no coração de Tot eram cultivados e ditados pela noite da geografia e pelas veleidades e metamorfoses da alma humana, pois em Hermopólis, o deus- íbis era proclamado esposo da sagaz Sechat, deusa dos anais e da história, que lhe ofereceu um filho de nome Hornub, enquanto que em Heliópolis Nehemetauai, isto é, “aquela que erradica o mal” era tomada por sua mulher, concebendo com ele Hornefer. Alguns devaneios da mitologia revelam que Tot desposou igualmente Maet, a etérea filha de Ré, versão suplantada por aquela que consignava a união de Tot e Tefnut, resultante da fuga do Olho de Ré para a Núbia, sob a forma da graciosa deusa. Incumbido de a restituir ao seu legítimo proprietário, o deus– íbis não terá resistido aos seus encantos, desposando-a no seu retorno ao Egipto. Porém, enquanto entidade intelectualmente superior, abençoada pela consciência da incomensurabilidade da sua sagacidade, Tot bebe da fonte da pretensão, tornando-se terrivelmente enfadonho, displicente e com uma hedionda propensão a exibir a sua inteligência através de uma retórica prolixa, escrava de uma abominável e excessiva facúndia, tal como sugere um determinado episódio do mito osírico: Na ânsia de escapar à pravidade do deus Seth, Ísis, sustendo nos braços seu filho Hórus, toma os pântanos de Chemnis, como seu refúgio de eleição. Coagida pela escassez de alimentos, a deusa abandona todas as manhãs o seu filho, a fim de assegurar a subsistência de ambos. Contudo, uma noite, ao retornar de mais uma extenuante peregrinação em busca de géneros alimentares, Ísis deparou-se com Hórus inconsciente e, desesperada, evocou Rá, que, por seu turno, não hesitou em solicitar a Tot que restituísse a saúde à criança. Após examinar cuidadosamente o enfermo, o eloquente deus- íbis lançou-se em abstractas cogitações, extravasadas sob a forma de praguejos pontuais e monólogos facundos e muito pouco apropriados. Exasperada com a sua inércia, Ísis arrebata Tot aos seus devaneios, admoestando-o severamente por “sábio ser o seu coração, mas terrivelmente demoradas as suas resoluções”.

 

Detalhes e vocabulário egípcio:
 Tot era designado, em egípcio, por Djehuti, numa hipotética alusão a Djehut, a décima quinta província do Baixo Egipto, cuja denominação evocava o íbis, um dos seus animais sagrados. 
 Tal como já referido, o insigne mestre do Verbo era representado como um homem com cabeça de íbis, ornada pelo disco da Lua ou por uma coroa atef com o disco, uraeus e chifres. Em suas mãos, Tot sustém um cálamo e uma paleta de escriba. É sob esta forma que o deus- íbis regista os nomes dos faraós nas folhas da divina árvore persea, aquando da sua ascensão ao imponente trono do Egipto. Todavia, Tot surge-nos igualmente enquanto íbis ou, eventualmente, sob a forma de um babuíno. 
 Emissária das leis cósmicas, a magia, ciência divina personificada por Tot, é soberana do universo egípcio, instituindo um reinado de coesão espiritual que encontra na “mulher sábia” uma das suas maiores depositárias,. Tal como nos sugerem os arquivos de Set Maet, “Lugar de Verdade”, povoação alguma, independentemente do seu tamanho, se privava da protecção destas grandes magas. Habilitada a instaurar a harmonia onde o caos reinava, a exonerar as forças malignas e a preconizar o futuro, esta vidente surge-nos com frequência ajoelhada defronte de Tot, que sem hesitar a convidava a franquear a sua morada de sabedoria. 
 Sechat- Deusa da escrita e da medição, usualmente retractada como uma mulher envergando um vestido de pele de pantera. Em sua cabeça, insinuava-se um toucado com uma estrela de sete pontas e um arco. Juntamente com Tot, a sua versão masculina, inscrevia o nome dos faraós indigitados na sagrada árvore persea. A II Dinastia concedeu-lhe o privilégio de assistir o regente terreno no ritual de fundação de “esticar a corda”. A partir do Médio Império, a sua efígie é uma constante nos cenas dos templos dedicadas às campanhas militares, sendo representada a registar o número de cativos e despojos de guerra conquistados pelo Egipto. O Império Novo associou-a também ao festival jubilar Seb. A deusa Sechat consagrou-se igualmente regente da Casa da Vida, onde se compunham os rituais vitais para a conservação da harmonia cósmica e onde os faraós eram iniciados nos enigmas da sua função. Patrona das bibliotecas e protectora dos textos fundamentais, Sechat regista a oratória da vida com seu pincel divino, ditando nos contornos de suas palavras o destino dos faraós, tal como é demonstrado no templo de Séti I em Abidos: “A minha mão escreve o seu longo tempo de vida, a saber: do que sai da boca da Luz Divina (Ré), o meu pincel traça a eternidade; a minha tinta, o tempo; o meu tinteiro, as inúmeras festas de regeneração.” 
 

Verónica Freitas

A Lenda de Hórus





Hórus, mítico soberano do Egipto, desdobra as suas divinas asas de falcão sob a cabeça dos faraós, não somente meros protegidos, mas, na realidade, a própria incarnação do deus do céu. Pois não era ele o deus protector da monarquia faraónica, do Egipto unido sob um só faraó, regente do Alto e do Baixo Egipto? Com efeito, desde o florescer da época história, que o faraó proclamava que neste deus refulgia o seu ka (poder vital), na ânsia de legitimar a sua soberania, não sendo pois inusitado que, a cerca de 3000 a. C., o primeiro dos cinco nomes da titularia real fosse exactamente “o nome de Hórus”. No panteão egípcio, diversas são as deidades que se manifestam sob a forma de um falcão. Hórus, detentor de uma personalidade complexa e intrincada, surge como a mais célebre de todas elas. Mas quem era este deus, em cujas asas se reinventava o poder criador dos faraós? Antes de mais, Hórus representa um deus celeste, regente dos céus e dos astros neles semeados, cuja identidade é produto de uma longa evolução, no decorrer da qual Hórus assimila as personalidades de múltiplas divindades. 

Originalmente, Hórus era um deus local de Sam- Behet (Tell el- Balahun) no Delta, Baixo Egipto. O seu nome, Hor, pode traduzir-se como “O Elevado”, “O Afastado”, ou “O Longínquo”. Todavia, o decorrer dos anos facultou a extensão do seu culto, pelo que num ápice o deus tornou-se patrono de diversas províncias do Alto e do Baixo Egipto, acabando mesmo por usurpar a identidade e o poder das deidades locais, como, por exemplo, Sopedu (em zonas orientais do Delta) e Khentekthai (no Delta Central). Finalmente, integra a cosmogonia de Heliópolis enquanto filho de Ísis e Osíris, englobando díspares divindades cuja ligação remonta a este parentesco. O Hórus do mito osírico surge como um homem com cabeça de falcão que, à semelhança de seu pai, ostenta a coroa do Alto e do Baixo Egipto. É igualmente como membro desta tríade que Hórus saboreia o expoente máximo da sua popularidade, sendo venerado em todos os locais onde se prestava culto aos seus pais. A Lenda de Osíris revela-nos que, após a celestial concepção de Hórus, benção da magia que facultou a Ísis o apanágio de fundir-se a seu marido defunto em núpcias divinas, a deusa, receando represálias por parte de Seth, evoca a protecção de Ré- Atum, na esperança de salvaguardar a vida que florescia dentro de si. 

Receptivo às preces de Ísis, o deus solar velou por ela até ao tão esperado nascimento. Quando este sucedeu, a voz de Hórus inebriou então os céus: “ Eu sou Hórus, o grande falcão. O meu lugar está longe do de Seth, inimigo de meu pai Osíris. Atingi os caminhos da eternidade e da luz. Levanto voo graças ao meu impulso. Nenhum deus pode realizar aquilo que eu realizei. Em breve partirei em guerra contra o inimigo de meu pai Osíris, calcá-lo-ei sob as minhas sandálias com o nome de Furioso... Porque eu sou Hórus, cujo lugar está longe dos deuses e dos homens. Sou Hórus, o filho de Ísis.” Temendo que Seth abraçasse a resolução de atentar contra a vida de seu filho recém- nascido, Ísis refugiou-se então na ilha flutuante de Khemis, nos pântanos perto de Buto, circunstância que concedeu a Hórus o epíteto de Hor- heri- uadj, ou seja, “Hórus que está sobre a sua planta de papiro”. Embora a natureza inóspita desta região lhe oferecesse a tão desejada segurança, visto que Seth jamais se aventuraria por uma região tão desértica, a mesma comprometia, concomitantemente, a sua subsistência, dada a flagrante escassez de alimentos característica daquele local. Para assegurar a sua sobrevivência e a de seu filho, Ísis vê-se obrigada a mendigar, pelo que, todas as madrugadas, oculta Hórus entre os papiros e erra pelos campos, disfarçada de mendiga, na ânsia de obter o tão necessário alimento. Uma noite, ao regressar para junto de Hórus, depara-se com um quadro verdadeiramente aterrador: o seu filho jazia, inanimado, no local onde ela o abandonara. Desesperada, Ísis procura restituir-lhe o sopro da vida, porém a criança encontrava-se demasiadamente débil para alimentar-se com o leite materno. Sem hesitar, a deusa suplica o auxílio dos aldeões, que todavia se relevam impotentes para a socorrer.

OLHO DE HÓRUSQuando o sofrimento já quase a fazia transpor o limiar da loucura, Ísis vislumbrou diante de si uma mulher popular pelos seus dons de magia, que prontamente examinou o seu filho, proclamando Seth alheio ao mal que o atormentava. Na realidade, Hórus ( ou Harpócrates, Horpakhered- “Hórus menino/ criança”) havia sido simplesmente vítima da picada de um escorpião ou de uma serpente. Angustiada, Ísis verificou então a veracidade das suas palavras, decidindo-se, de imediato, e evocar as deusas Néftis e Selkis (a deusa- escorpião), que prontamente ocorreram ao local da tragédia, aconselhando-a a rogar a Ré que suspendesse o seu percurso usual até que Hórus convalescesse integralmente. Compadecido com as suplicas de uma mãe, o deus solar ordenou assim a Toth que salvasse a criança. Quando finalmente se viu diante de Hórus e Ísis, Toth declarou então: “ Nada temas, Ísis! Venho até ti, armado do sopro vital que curará a criança. Coragem, Hórus! Aquele que habita o disco solar protege-te e a protecção de que gozas é eterna. Veneno, ordeno-te que saias! Ré, o deus supremo, far-te-á desaparecer. A sua barca deteve-se e só prosseguirá o seu curso quando o doente estiver curado. Os poços secarão, as colheitas morrerão, os homens ficarão privados de pão enquanto Hórus não tiver recuperado as suas forças para ventura da sua mãe Ísis. Coragem, Hórus. O veneno está morto, ei- lo vencido.”

Após haver banido, com a sua magia divina, o letal veneno que estava prestes a oferecer Hórus à morte, o excelso feiticeiro solicitou então aos habitantes de Khemis que velassem pela criança, sempre que a sua mãe tivesse necessidade de se ausentar. Muitos outros sortilégios se abateram sobre Hórus no decorrer da sua infância (males intestinais, febres inexplicáveis, mutilações), apenas para serem vencidos logo de seguida pelo poder da magia detida pelas HÓRUSsublimes deidades do panteão egípcio. No limiar da maturidade, Hórus, protegido até então por sua mãe, Ísis, tomou a resolução de vingar o assassinato de seu pai, reivindicando o seu legítimo direito ao trono do Egipto, usurpado por Seth. Ao convocar o tribunal dos deuses, presidido por Rá, Hórus afirmou o seu desejo de que seu tio deixasse, definitivamente, a regência do país, encontrando, ao ultimar os seus argumentos, o apoio de Toth, deus da sabedoria, e de Shu, deus do ar. Todavia, Ra contestou-os, veementemente, alegando que a força devastadora de Seth, talvez lhe concedesse melhores aptidões para reinar, uma vez que somente ele fora capaz de dominar o caos, sob a forma da serpente Apópis, que invadia, durante a noite, a barca do deus- sol, com o fito de extinguir, para toda a eternidade, a luz do dia. Ultimada uma querela verbal, que cada vez mais os apartava de um consenso, iniciou-se então uma prolixa e feroz disputa pelo poder, que opôs em confrontos selváticos, Hórus a seu tio. Após um infrutífero rol de encontros quase soçobrados na barbárie, Seth sugeriu que ele próprio e o seu adversário tomassem a forma de hipopótamos, com o fito de verificar qual dos dois resistiria mais tempo, mantendo-se submergidos dentro de água. 

Escoado algum tempo, Ísis foi incapaz de refrear a sua apreensão e criou um arpão, que lançou no local, onde ambos haviam desaparecido. Porém, ao golpear Seth, este apelou aos laços de fraternidade que os uniam, coagindo Ísis a sará-lo, logo em seguida. A sua intervenção enfureceu Hórus, que emergiu das águas, a fim de decapitar a sua mãe e, acto contíguo, levá-la consigo para as montanhas do deserto. Ao tomar conhecimento de tão hediondo acto, Rá, irado, vociferou que Hórus deveria ser encontrado e punido severamente. Prontamente, Seth voluntariou-se para capturá-lo. As suas buscas foram rapidamente coroadas de êxito, uma vez que este nem ápice se deparou com Hórus, que jazia, adormecido, junto a um oásis. Dominado pelo seu temperamento cruel, Seth arrancou ambos os olhos de Hórus, para enterrá-los algures, desconhecendo que estes floresceriam em botões de lótus. Após tão ignóbil crime, Seth reuniu-se a Rá, declarando não ter sido bem sucedido na sua procura, pelo que Hórus foi então considerado morto. Porém, a deusa Hátor encontrou o jovem deus, sarando-lhe, miraculosamente, os olhos, ao friccioná-los com o leite de uma gazela. Outra versão, pinta-nos um novo quatro, em que Seth furta apenas o olho esquerdo de Hórus, representante da lua. Contudo, nessa narrativa o deus-falcão, possuidor, em seus olhos, do Sol e da lua, é igualmente curado.

Em ambas as histórias, o Olho de Hórus, sempre representado no singular, torna-se mais poderoso, no limiar da perfeição, devido ao processo curativo, ao qual foi sujeito. Por esta razão, o Olho de Hórus ou Olho de Wadjet surge na mitologia egípcia como um símbolo da vitória do bem contra o mal, que tomou a forma de um amuleto protector. A crença egípcia refere igualmente que, em memória desta disputa feroz, a lua surge, constantemente, fragmentada, tal como se encontrava, antes que Hórus fosse sarado. Determinadas versões desta lenda debruçam-se sobre outro episódio de tão desnorteante conflito, em que Seth conjura novamente contra a integridade física de Hórus, através de um aparentemente inocente convite para o visitar em sua morada. A narrativa revela que, culminado o jantar, Seth procura desonrar Hórus, que, embora precavido, é incapaz de impedir que um gota de esperma do seu rival tombe em suas mãos. Desesperado, o deus vai então ao encontro de sua mãe, a fim de suplicar-lhe que o socorra. Partilhando do horror que inundava Hórus, Ísis decepou as mãos do filho, para arremessá-las de seguida à água, onde graças à magia suprema da deus, elas desaparecem no lodo. Todavia, esta situação torna-se insustentável para Hórus, que toma então a resolução de recorrer ao auxílio do Senhor Universal, cuja extrema bonomia o leva a compreender o sofrimento do deus- falcão e, por conseguinte, a ordenar ao deus- crocodilo Sobek, que resgatasse as mãos perdidas. Embora tal diligência haja sido coroada de êxito, Hórus depara-se com mais um imprevisto: as suas mãos tinham sido abençoadas por uma curiosa autonomia, incarnando dois dos filhos do deus- falcão. 

Novamente evocado, Sobek é incumbido da taregfa de capturar as mãos que teimavam em desaparecer e levá-las até junto do Senhor Universal, que, para evitar o caos de mais uma querela, toma a resolução de duplicá-las. O primeiro par é oferecido à cidade de Nekhen, sob a forma de uma relíquia, enquanto que o segundo é restituído a Hórus. Este prolixo e verdadeiramente selvático conflito foi enfim solucionado quando Toth persuadiu Rá a dirigir uma encomiástica missiva a Osíris, entregando-lhe um incontestável e completo título de realeza, que o obrigou a deixar o seu reino e confrontar o seu assassino. Assim, os dois deuses soberanos evocaram os seus poderes rivais e lançaram-se numa disputa ardente pelo trono do Egipto. Após um recontro infrutífero, Ra propôs então que ambos revelassem aquilo que tinham para oferecer à terra, de forma a que os deuses pudessem avaliar as suas aptidões para governar. Sem hesitar, Osíris alimentou os deuses com trigo e cevada, enquanto que Seth limitou-se a executar uma demonstração de força. Quando conquistou o apoio de Ra, Osíris persuadiu então os restantes deuses dos poderes inerentes à sua posição, ao recordar que todos percorriam o horizonte ocidental, alcançando o seu reino, no culminar dos seus caminhos. Deste modo, os deuses admitiram que, com efeito, deveria ser Hórus a ocupar o trono do Egipto, como herdeiro do seu pai. Por conseguinte, e volvidos cerca de oito anos de altercações e recontros ferozes, foi concedida finalmente ao deus- falcão a tão cobiçada herança, o que lhe valeu o título de Hor-paneb-taui ou Horsamtaui/Horsomtus, ou seja, “Hórus, senhor das Duas Terras”.

Como compensação, Rá concedeu a Seth um lugar no céu, onde este poderia desfrutar da sua posição de deus das tempestades e trovões, que o permitia atormentar os demais. Este mito parece sintetizar e representar os antagonismos políticos vividos na era pré- dinástica, surgindo Hórus como deidade tutelar do Baixo Egipto e Seth, seu oponente, como protector do Alto Egipto, numa clara disputa pela supremacia política no território egípcio. Este recontro possui igualmente uma cerca analogia com o paradoxo suscitado pelo combate das trevas com a luz, do dia com a noite, em suma, de todas as entidades antagónicas que encarnam a típica luta do bem contra o mal. A mitologia referente a este deus difere consoante as regiões e períodos
de tempo. Porém, regra geral, Hórus surge como esposo de Háthor, deusa do amor, que lhe ofereceu dois filhos: Ihi, deus da música e Horsamtui, “Unificador das Duas Terras”. Todavia, e tal como referido anteriormente, Hórus foi imortalizado através de díspares representações, surgindo por vezes sob uma forma solar, enquanto filho de Atum- Ré ou Geb e Nut ou apresentado pela lenda osírica, como fruto dos amores entre Osíris e Ísis, abraçando assim diversas correntes mitológicas, que se fundem, renovam e completam em sua identidade. É dos muitos vectores em que o culto solar e o culto osírico, os mais relevantes do Antigo Egipto, se complementam num oásis de Sol, pátria de lendas de luz, em cujas águas d’ ouro voga toda a magia de uma das mais enigmáticas civilizações da Antiguidade. 

Detalhes e vocabulário egípcio:
 culto de Hórus centralizava-se na cidade de Edfu, onde particularmente no período ptolomaico saboreou uma estrondosa popularidade;
 culto do deus falcão dispersou-se em inúmeros sub- cultos, o que criou lendas controversas e inúmeras versões do popular deus, como a denominada Rá- Harakhty;
 as estelas (pedras com imagens) de Hórus consideravam-se curativas de mordeduras de serpentes e picadas de escorpião, comuns nestas regiões, dado representarem o deus na sua infância vencendo os crocodilos e os escorpiões e estrangulando as serpentes. Sorver a água que qualquer devotado lhe houvesse deixado sobre a cabeça, significava a obtenção da protecção que Ísis proporcionava ao filho. Nestas estelas surgia, frequentemente, o deus Bes, que deita a língua de fora aos maus espíritos. Os feitiços cobrem os lados externos das estelas. Encontramos nelas uma poderosa protecção, como salienta a famigerada Estela de Mettenich: “Sobe veneno, vem e cai por terra. Hórus fala-te, aniquila-te, esmaga-te; tu não te levantas, tu cais, tu és fraco, tu não és forte; tu és cego, tu não vês; a tua cabeça cai para baixo e não se levanta mais, pois eu sou Hórus, o grande Mágico.”. 
 out- embalsamadores
 vabet- lugar de purificação 
 

Verónica Freitas