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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Nós os índios, conhecemos o silêncio.


jesus-xama
 
 Não temos medo dele.
Na verdade, para nós ele é mais poderoso
do que as palavras.
Nossos ancestrais foram educados
nas maneiras do silêncio e eles
nos transmitiram esse conhecimento.
"Observa, escuta, e logo atua", nos diziam.
Esta é a maneira correta de viver.

Observa os animais para ver
como cuidam se seus filhotes.
Observa os anciões para ver
como se comportam.
Observa o homem branco para ver
o que querem.
Sempre observa primeiro,
com o coração e a mente quietos,
e então aprenderás.
 Quanto tiveres observado o suficiente,
então poderás atuar.

Com vocês, brancos, é o contrário.
Vocês aprendem falando.
Dão prêmios às crianças que falam mais na escola.
Em suas festas, todos tratam de falar.
No trabalho estão sempre tendo reuniões
nas quais todos interrompem a todos,
e todos falam cinco, dez, cem vezes.
E chamam isso de "resolver um problema".
Quando estão numa habitação e há silêncio,
ficam nervosos.
Precisam  preencher o espaço com sons.
Então, falam compulsivamente,
mesmo antes de saber o que vão dizer.

Vocês gostam de discutir.
Nem sequer permitem que
o outro termine uma frase.
Sempre interrompem.
 Para nós isso é muito desrespeitoso
e muito estúpido, inclusive.
Se começas a falar,
eu não vou te interromper.
Te escutarei.
Talvez deixe de escutá-lo
se não gostar do que estás dizendo.
Mas não vou interromper-te.
 Quando terminares, tomarei minha decisão
sobre o que disseste,
mas não te direi se não estou de acordo,
a menos que seja importante.
 Do contrário, simplesmente ficarei calado
e me afastarei.
Terás dito o que preciso saber.
Não há mais nada a dizer.
Mas isso não é suficiente para a maioria de vocês.

Deveríamos pensar nas suas palavras
como se fossem sementes.
Deveriam plantá-las, e permiti-las crescer em silêncio.
Nossos ancestrais nos ensinaram que
a terra está sempre nos falando,
e que devemos ficar em silêncio para escutá-la.

Existem muitas vozes além das nossas.
Muitas vozes.
 Só vamos escutá-las em silêncio.
 
 
"Neither Wolf nor Dog. On Forgotten Roads with an Indian Elder"
 Kent Nerburn

A Árvore Torta





Um dia, diante da velha árvore torta, um pinheiro todo vergado pelo tempo, o sábio da aldeia ofereceu a sua própria casa para aquele discípulo que "conseguisse ver o pinheiro na posição correta".

Todos se aproximaram e ficaram pensando na possibilidade de ganhar a casa e o prestígio, mas como seria  "enxergar o pinheiro na posição correta"? O mesmo era tão torto que a pessoa candidata ao prêmio teria que ser no mínimo contorcionista.

Ninguém ganhou o prêmio e o velho sábio explicou ao povo ansioso, que ver aquela árvore em sua posição correta era "vê-la como uma árvore torta". 
Só isso!

Nós temos em nós, esse jeito, essa mania de querer "consertar as coisas, as pessoas, e tudo mais" de acordo com a nossa visão pessoal. Quando olhamos para uma árvore torta é extremamente importante enxergá-la como árvore torta, sem querer endireitá-la, pois é assim que ela é. Se você tentar "endireitar" a velha árvore torta, ela vai rachar e morrer, por isso é fundamental aceitá-la como ela é.

Nos relacionamentos é comum um criar no outro expectativas próprias,  esperar que o outro faça aquilo que ele "sonha" e não o que o outro pode oferecer. Sofremos antecipadamente por criarmos expectativas que não estão alcance dos outros. 
Porque temos essa visão de "consertar" o que achamos errado. 
Se tentássemos enxergar as coisas como elas realmente são, muito sofrimento seria poupado.

Os pais sofreriam menos com os seus filhos, pois conhecendo-os, não colocariam expectativas que são suas, na vida dos mesmos, gerando crianças doentes, frustradas, rebeldes e até vazias.

Tente, pelo menos tente, ver as pessoas como elas realmente são, pare de imaginar como elas deveriam ser, ou tentar consertá-las da maneira que você acha melhor. O torto pode ser a melhor forma de uma árvore crescer.
Não criei mais dificuldades no seu relacionamento, se vemos as coisas como elas são, muitos dos nossos problemas deixam de existir, sem mágoas, sem brigas, sem ressentimentos.

E para terminar, olhe para você mesmo com os "olhos de ver" e enxergue as possibilidades, as coisas que você ainda pode fazer e não fez. Pode ser que a sua árvore seja torta aos olhos das outras pessoas, mas pode ser a mais frutífera, a mais bonita, a mais perfumada da região, e isso, não depende de mais ninguém para acontecer, depende só de você.
Pense nisso!
 
Por Paulo Roberto Gaefke em 05 de Agosto de 2008

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Os animais do Xamanismo

Extraído do livro : O Espírito Animal – Ed. Roca

É do estudo do xamanismo que podemos aprender muito sobre as interações mentais entre homens e animais. Seres espirituais sejam na forma de santos, anjos, ancestrais, fadas, duendes ou animais totêmicos compõem o repertório de nossos mitos antigos nas diversas escrituras. Quando as crenças são universais, devemos dar algum crédito a elas. O estudo dos totens animais é muito importante para a compreensão de como o reino espiritual se manifesta na vida natural.

O conceito de “medicina”, que emprego, quando se refere; a medicina da águia, poderes medicinais do urso, medicina pessoal, e etc. se referem aos quatro corpos: O emocional, o físico, o mental e o espiritual. O termo medicina é empregado para o poder pessoal, dádivas de sabedoria, força física, clareza espiritual, talentos. É um modo de vida consciente através da relação de cura, com nossa Mãe Terra e suas crianças, nossos familiares, amigos, plantas, pedras e as pequenas criaturas.

É trilhar o caminho da vida em harmonia, amor, equilíbrio com a Terra e o Universo. Tudo que afeta o equilíbrio, afeta uma medicina.

As relações entre o xamã e os animais são de natureza espiritual, e de uma intensidade mística tal que se torna difícil para a mentalidade moderna, cética, imaginá-la. A relação era tão íntima que os xamãs achavam possível tornar-se um animal. Ao se tornar um animal mítico, o homem transformava-se em algo maior e mais forte do que ele próprio.

O pensamento xamânico diz que existe uma mente grupal, e um animal arquetípico ou mestre para cada espécie. Os espíritos animais estão seguros numa espécie de consciência coletiva e sabedoria de suas espécies. Em conseqüência, espíritos animais são excelentes professores, guias, auxiliares da humanidade.

Muitos rituais do passado usavam animais. Em algumas sociedades antigas o sangue foi um meio de liberar energia psíquica. Esse foi o único caminho que sabiam.

Hoje temos desenvolvido a energia psíquica humana que é vital e forte, sem precisarmos do sacrifício animal. Expandimos a nossa consciência, nossa criatividade, de uma maneira que é melhor para toda a vida que nos cerca.

As cerimônias efetivas se harmonizam com as tradições antigas e com os insigths modernos. Constroe-se sobre o velho e soma-se criativamente.

Os xamãs tem ao menos um animal de poder, que age como espírito guardião e como intermediário para acessar outras realidades. Nas viagens xamânicas ele assume os talentos de seu animal e vê de maneira diferente. Os animais protegem os  xamãs em trabalhos perigosos e são fontes de conhecimento. Para o xamã japonês, eles podem ser uma forma exaltada de uma transformação do Buda.

Os animais no xamanismo, são também, classificados segundo os quatro elementos ( há variações de linhas ) :

Criaturas aquáticas, anfíbios - elemento água

Répteis - elemento terra

Pássaros - elemento ar

Mamíferos - elemento fogo

Os animais da água são freqüentemente, os guardiões de nossos sonhos, guardam conhecimentos e facilitam projeções astrais. Os anfíbios nos ensinam a refletirmos para aprendermos a usar as emoções ( água) construtivamente ( terra).

O Reino dos pássaros é o ar que interliga o Paraíso com a Terra.São os pássaros que se movem entre ambos. Fazem o caminho entre a espiritualidade e a matéria. O ar em movimento é o vento que simboliza a o movimento e a capacidade de voar, nas asas da inspiração, intuição e criatividade.

Os insetos reúnem habilidades para voar, espalhar, a adaptabilidade, a armadura, a reprodução, organização, fertilização, etc.

A aranha entre os nativos americanos é ao mesmo tempo Avó e Criador, que criam novas energias dentro da existência.

Os répteis são os guardiões dos registros da Terra, ensinam a capacidade de sobrevivência.

Algumas versões da Roda Medicinal trazem o seguinte :

Direção Elemento Totem Animal Portal Corpo
Leste Fogo Águia Dourada Iluminação e Claridade Espiritual
Oeste Terra Urso Cinzento Introspecção Físico
Norte Ar Búfalo Branco Sabedoria Mental
Sul Água Coiote Fé/Emoções Emocional

Os povos nativos têm acreditado que os clãs animais  têm grandes poderes medicinais que eles compartilham conosco, se nós temos a sabedoria para receber os ensinamentos.

O antropólogo Michael Harner, em seu livro “The Way of The Shaman “ descreve que quando uma pessoa está doente ela fica desanimada , ou seja ela perdeu sua força animal, está deprimida, fraca e predisposta a adoecer.

Os povos xamânicos chamam a energia dos animais honrando-os. Nós também podemos tirar proveito desses poderes, em todo o conjunto do seu clã, por um processo chamado invocação.

Invocação pode ser entendida como um tipo de prece, um caminho para chamar o espírito de certos animais, até nós.

Quando nós invocamos, nós estamos literalmente convidando um espírito animal para viver perto de nós, então podemos compartilhar de seu poder medicinal. Ao invocar um espírito animal, estamos rezando para o conjunto das espécies daquele animal.

Quando nós invocamos algum animal, chamamos a sabedoria do conjunto das espécies. O simples fato de procurar deliberadamente o seu poder e de inclui-lo em nossa vida pode transformar completamente a nossa maneira de viver. Você não estará chamando espíritos de animais mortos ou vivos, não deve procurar o seu animal de poder fora de você, ele está no seu interior. Ao invocarmos a Águia, invocamos o poder, conhecimento e experiência de todos as águias, da alma coletiva, da essência espiritual do animal que vive na Terra, e no Mundo Espiritual.


























Deve-se estudá-lo atentamente para aprender mais coisas a respeito de sí próprio. Quando interagimos com os animais, nós aprendemos a vê-los e tudo na natureza toma um novo caminho. Nós chegamos para apreciar e reverenciar a sabedoria e poder, inerentes a todos os seres da natureza. Nos temos nos desenvolvido na ciência, tecnologia e habilidade analítica, mas os espíritos animais têm outros poderes que, em alguns caminhos, vão além de todos os nossos próprios. Nós podemos receber a sua orientação e sermos curados por sua medicina, por invocar seus poderes até nós.

Podemos usar os totens animais para aprender sobre nós mesmos e sobre mundos invisíveis. Há uma força arquetípica que se manifesta através dessas criaturas. Esses arquétipos têm suas próprias qualidades e características refletidas pelos comportamentos e hábitos dos animais.

Um xamã pode ter vários animais de poder como auxiliares, para objetivos específicos. Você poderá trabalhar com outros animais, e os descobrirá à medida que for desenvolvendo habilidades xamânicas, mas seu animal principal continuará sempre sendo o mais importante para você. Alguns xamãs não aconselham revelar o seu animal de poder para outras pessoas, outros falam publicamente, o certo nesse caso é que cada um ouça a sua voz interior, e que tenha uma clara e boa intenção ao revelar.

Quando encontrar seu animal, você saberá, ou então ele se comunicará com você de alguma maneira. Se quiser poderá falar com ele. Ao voltar da viagem ele o acompanhará através do túnel, de forma que a energia dele estará ao seu lado, o tempo todo, pronta para ser usada quando você quiser.

Comece a meditar sobre seu animal, faça visualizações simples, imagine-o na sua frente. Deixe que ele se comunique telepaticamente com você. Veja como ele pode ajuda-lo em diferentes áreas da sua vida. Não use o racional, não se preocupe em entender, vá com o coração e a mente de uma criança, que obterá uma conexão mais forte com ele.

Visualize seu animal se fundindo em você. Faça meditações onde você se vê como o animal.

Faça canções para seu animal. Não precisam ser muito elaboradas. Algumas linhas melódicas simples e repetitivas servem de excelentes ferramentas. Você poderá criar numa melodia que já conhece. Até que um dia receba a “Canção de Poder” do seu animal. ( processo de canalização )

A tarefa do animal de poder é manter a sua energia sadia – física, mental, emocional e espiritualmente, provendo direcionamento e apoio. No dia a dia qualquer um pode invocar seu animal de poder quando precisa de energia extra ou assistência, ou num lugar perigoso, ou em época de enfermidade.

Um dos métodos mais famosos para entrar em contato com o animal de poder é a Busca da Visão. Usualmente o praticante vai para um lugar ermo, montanhas ou florestas, jejuando, as vezes dormindo no relento, em alguns casos bebendo plantas de poder, aguardando por uma visão

Um caminho muito simples para invocar um espírito animal. é visualizá-lo e chamá-lo de coração.

Se você, por exemplo, precisar de uma maior coragem, poderá visualizar um Leão e invocar:

Espírito do Leão. Eu estou chamando você. Viva dentro de mim e abasteça-me com sua coragem.

Quando termina a invocação, agradecemos ao Espírito Animal, pela sua ajuda.

Você deve compreender que está invocando uma virtude, não confunda esse trabalho com religião. Você não estará adorando ídolos, e sim reverenciando e honrando uma obra da Criação Divina, e não substituindo a fé em Deus, que é insubstituível.

Você também pode se inspirar com fotos do animal, camisetas, estatuas, quadros, etc. O animal também pode ser invocado, imitando igualando o seu comportamento. (Dança Animal) Dessa forma nos alinhamos com as suas energias, e chamamos o seu espírito até nós. Nós podemos agir como animais, fazer sons, convidando-os a trazerem seus poderes até nós.

Podemos rondar e urrar como um Leão, assim que invocamos o seu espírito. Podemos espalhar nossos braços e voar como uma Águia. Rastejar como uma serpente.

Os xamãs costumam, Ter suas canções, que são enviadas pelos espíritos guardiões, para invocar seu poder. No xamanismo, quando nos harmonizamos com nosso animal, ele nos envia canções. As canções de poder não são compostas, e sim canalizadas. São um fenômeno de liberação psíquica, mediúnica. Elas podem trazer felicidade, bem estar, cura, transe, entendimento, reflexão. Todo o xamã tem sua canção de poder. Harner sugere que para ter uma canção de poder, você deve ir sozinho,num lugar agreste,onde não haja ninguém. Não tome café e jejue o dia todo. Caminhe sossegadamente e as vezes sente-se. Peça sua canção ao Universo. Depois que receber a canção, quanto mais você a canta, mais ela fica impregnada de energia e ainda ajuda-o a entrar em outro estado de consciência.

Mesmo não recebendo a canalização, você pode invocar um espírito animal, criando uma música. Por exemplo:

Espírito do Golfinho. Eu chamo você
Seu espírito está aqui agora
Ajude-me a me comunicar melhor com todos
Espírito do Golfinho, viva em mim.

Não é necessário que a invocação tenha rima. Procure visualizar o animal na natureza. Respire profundamente e use suas próprias palavras, colocando vida na voz. Você poderá usar a melodia de uma canção já conhecida, caso queira.

Sinta, como no exemplo acima, seu nariz igual ao bico de um golfinho, suas nadadeiras, seu corpo fluindo nas águas, sinta-se um golfinho. Peça para o Golfinho viver em seu coração, enchendo você de pureza, paz, harmonia, sabedoria. Agradeça ao Golfinho, quando terminar.

Use a energia de seu animal de poder no cotidiano. Para tomar decisões importantes, para reabastecer-se de energia, para enfrentar obstáculos.

Quando, por exemplo, você tiver que ir a algum lugar, que suspeite ter uma energia pesada visualize seu animal de poder indo na sua frente e criando um círculo de proteção que o protegerá desde o momento que entrar no recinto. O contato periódico com seu animal é que determinará as melhores formas de comunicação entre vocês

No xamanismo realizamos uma ritual, com tambor, para que os praticantes se conectem com seu animal, e também deixamos nosso animal aflorar através da “Dança do Animal”, uma outra forma de evocação, unificando o animal de poder com o dançarino . No xamanismo, os praticantes costumam, também ter as suas canções, para evocar o poder dos animals.

Evocando com palavras, visualizações, você logo descobrirá, intuitivamente outros meios de comunicação com eles. Eles poderão trazer mensagens em sonhos, e as vezes aparecem nas suas dúvidas em out doors, revistas, camisetas, em plásticos de automóveis, ou seja criando sincronicidade, vindo por uma variedade de sinais.

Existem numerosas formas para facilitar a invocação dos espíritos animais. Uma coisa que facilita é passar o maior tempo possível em contato com lugares naturais e selvagens, mas a invocação também poderá ser feita no seu jardim, ou num quarto com gravuras da natureza e plantas. E é claro assim como os animais respeitam a natureza, quanto mais nos aproximarmos e respeitarmos a natureza e todas as suas crianças, isso também se tornará uma grande invocação.

Descobrindo-se o totem animal, e estudando-o aprenderá a fundir-se com ele, e assim poderá chamar a sua energia sempre que necessário. Quando você honra o totem, estará honrando a essência espiritual, a energia que está por trás dele. Uma força real. Aprendendo a trabalhar essa energia você estará aprendendo a linguagem da natureza, e ai se abrem mistérios, segredos.

Na minha primeira cerimônia do animal guardião, descobri meu animal de poder, e com ela pude realmente voar. Mostrou-me os caminhos para chegar ao xamanismo e o insigth que aquela enorme pomba em minha cama aos 11 anos, não era pomba, era uma Águia.

Minha sensibilidade ficou muito mais aguçada, minha criatividade se expandiu, e recebi sua canção de poder :

Minha Guardiã

Águia, prá onde voas
Águia, prá onde vais.
A voar, a voar, a voar, a voar
A voar a voar sem parar

Águia, o que tu buscas.
Águia, o que tu procuras.
A voar, a voar, a voar, a voar.
A voar, a voar, lá no Céu.

Águia, não me abandone.
Guia meu caminhar
A voar, a voar, a voar, a voar.
A voar, a voar, para mim.

És minha Guardiã
Contigo, não vou recuar.
Vou voar, vou voar, vou voar, vou voar.
Vou voar, vou voar, com você.


A medicina da Águia é poderosa, voa alto, acima da ignorância humana, ajuda-nos a conquistar os limites desse mundo e a alcançar outros reinos. Ela ajuda no desenvolvimento dos poderes xamânicos, viajando em mundos alternativos. Com os olhos da Águia, nós podemos ver com a visão da Luz Solar, clareando a verdade na escuridão da ilusão. Permite-nos ver a distância, para enxergar a nossa própria vida, livre de preconceitos e preocupações. Permite-nos voar longe dos limites dos detalhes, focando coisas mais importantes, e, desenvolvendo nossos espíritos. Sua medicina também é a liberdade de vôo, não se prende a vícios, ou a padrões negativos.

Ensina a atacar nossos medos pessoais do desconhecido. Ensina a ampliar a percepção sobre nós mesmos além dos horizontes visíveis. Ela é considerada também o Leão Alado (coincidência?). Ambos estão associados á energia masculina e ao Sol.

É interessante, que ao trabalhar com o animal guardião, muitas respostas apareceram na minha vida em situações das mais diversas, tais como out doors, adesivos de carros, camisetas, nuvens no céu com o formato animal, sonhos, etc. Abre-se o portal da sincronicidade.

Eu chego a ter sensações físicas; na testa, nas sobrancelhas, nas costas, como se estivesse me transformando. As vezes me olho no espelho e vejo meu rosto a imagem imagem do meu animal de poder, sem contar muitos amigos e pessoas que participam de minhas cerimônias, que vêem em mim, quer seja no meu rosto ou acima de mim o meu aliado. Numa cerimônia do Cachimbo Sagrado com um Xamã Coiote-Em-Pé, o seu filho, que mal me conhecia, veio me falar da visão que ele teve comigo andando correndo numa planície e transformar-me numa Águia.

Certa vez também na minha casa em São Paulo, o xamã David Geiger, condutor de uma tenda de suor lakota, teve a visão no ritual do chanunpá (Cachimbo), que sob minha cabeça, vou uma Águia e deixava cair sobre minha cabeça, várias penas, formando uma espécie de cocar.

Muitas pessoas confundem imagem com ilusão. A imaginação é uma força da mente para criar e trabalhar com imagens. É principio da criação. Tudo antes de ser criado é imaginado, essa capacidade pode nos abrir para outros reinos, nos ajuda a restabelecermos contato com um conhecimento perdido, a auxilia-nos na cura, nos abre para altas visões e introvisões de significado

Tenho vários relatos, de alunos, que tiveram resultados significativos, após seu encontro com o animal:

Uma mulher de 28 anos, certa vez participou de uma cerimônia do animal guardião que transformou sua vida. Ela vivia doente e desanimada, tinha uma baixa imunidade, manchas na pele, não tinha ânimo para sair com amigos, não conseguia arrumar emprego, namorando então...Nem de longe.

Vou antecipar uma queixa que ela me havia feito no final da vivência, ela detestava mel, não podia nem sentir o cheiro que lhe dava náuseas. Daí ela fez a cerimônia do animal e adivinhe que animal chegou a ela?

O Urso! E quando ela perguntou o que deveria fazer para melhorar a sua situação, o seu desânimo de viver, ele respondeu que ela deveria comer mel.

Ela chegou até para mim, mais desanimada ainda falando:

- Léo! Só pode ser coisa da minha imaginação! Justo mel que eu detesto!

Eu lhe respondi que a resposta tinha vindo do seu interior, e que ela deveria entender a magia que está por trás disso. Eu recomendei que pegasse uma colher de chá de mel, e misturasse com um suco de frutas, e que ao tomar visualizasse o seu animal guardião.

Após três meses ela apareceu totalmente transformada. Sorridente, sua saúde tinha melhorou, recuperou o entusiasmo pela vida, arrumou emprego, só faltou namorado, mas ela estava com alguém em vista. Eu perguntei a ela o que se passou para tanta transformação, e ela respondeu:

- Léo, eu só não estou colocando mel no arroz e feijão, no resto eu ponho em tudo!

É claro, que os mais céticos podem dizer que foi apenas auto-sugestão, e pode ser. Mas, o que importa? Porque não podemos viver o mistério, a magia? O mais importante para mim foi ver uma pessoa mais confiante, com mais auto-estima, acreditando que dentro dela existe uma força capaz de transformar o feio em belo.

Através da imagem em ação as energias espirituais de interconectam com o mundo físico. É a realidade em níveis além do mundo dos sentidos. Criamos uma nova espécie de consciência, cores, formas, etc. Abre as portas para a intuição, nos liga com o mundo criativo, Isso é que ajuda sua identificação com seu totem, desperta sua energia para a vida. Crianças freqüentemente sonham com animais, deveríamos dar mais atenção a isso.

Nas vivências e workshops, recebi relatos de curas interessantes, insigth´s poderosos, pessoas que passaram a ver a vida com mais beleza, amaram mais a natureza, acreditavam mais no seu poder pessoal, saíram de situações difíceis.

Na consciência ordinária, o homem limita-se ás leis de causa e efeito. Está preso na linha do tempo (passado, presente, futuro). Ao compartilhar, a consciência de um animal, ele pode transcender o tempo e o espaço, e as leis de causa e efeito. Tornando-se um animal, o mundo se vitaliza e se renova.

O xamanismo praticado com Plantas de Poder (Ayauasca, Peyote, San Pedro, etc) também reforçam essa conexão do homem com o animal. O Jaguar, depois da Serpente, é o animal que surge com mais freqüência, nas visões proporcionadas pelas plantas. Também visões de Águias, Condor, Lobos e outros.

Bruce Lamb em seu livro O Feiticeiro do Alto Amazonas narra a visão sob efeito da bebida sacramental ayauasca, ou nixi honi xuma, com índios na Amazônia que abaixo segue resumida:

Com o canto da jibóia, uma jibóia gigantesca apareceu deslizando lentamente pela floresta. Luzes faiscavam de seus olhos e sua língua. Os padrões da pele da serpente brilhavam com intensas cores. Depois vieram umas surucucus gigantes, umas jararacas e muitas outras.

Depois vieram os pássaros, em especial da família do gavião. Com o canto especial do Gavião, apareceu uma enorme águia faiscando seus enormes olhos amarelos. Depois vieram os animais, grandes e pequenos, cada um com seu próprio canto.

Tive uma visão muito forte num trabalho espiritual do Santo Daime (Ayauasca), em Mauá – RJ. No ápice da manifestação da bebida sacramental, senti meu corpo leve, e tive a visão que estava voando nas costas de uma Águia, e depois eu me senti a própria Águia. Podia ver toda a paisagem de cima, sentia o vento bater em meu rosto, eu estava voando.

Alguns anos após no Peru, fazendo uma cerimônia da Ayauasca com o Xamã Mateo Arevalo, nativo da tribo Shipibo em Pucalpa, Amazônia Peruana, olhando para o Céu, vi uma imensa bola dourada, que rasgava a escuridão, vindo em minha direção. Uma visão magnífica, a figura de um enorme Leão, com uma juba imensa que balançava para frente e para trás com o vento, que chegou e parou no ar bem na minha frente. Eu não sentia medo, sentia um deslumbramento. Olhava para mim fixamente. Ao final da sessão Mateo me disse:

- A Ayauasca abriu o seu mundo. Seu mundo é dos Leões. Você sabe o que está por trás do seu nome Léo? Léo é Leão! Você de agora em diante deve passar a trabalhar com ele!

Em Machu Pichu, fazendo, a cerimônia do Uachuma, o cacto San Pedro, com meu amigo e curandeiro Agustin, tive as visões de Animais Sagrados; o Condor, o Puma, Elefantes e outros.

Certa vez num ritual de cura do Santo Daime, em Camanducaia, meu nariz e boca começaram a vibrar, e senti que estavam crescendo, e eu me percebi com a cabeça de um Lobo, logo após estava transformado em Lobo e andando na floresta.

Fazendo uma cerimônia de cura para o meu pai, também senti que tinha incorporado uma Águia, e voei para dentro do meu Pai, conseguindo obter preciosas informações sobre o seu estado de saúde.

É importante frisar que todas as visões tiveram, para mim, significados muito mais profundos do que o relato e as belezas das visões. O aprendizado e as conseqüências das visões quero manter no mistério.

· Todo o animal tem um espírito poderoso.

· Este espírito pode ser o próprio, ou de um ser que usou a imagem de um animal para comunicar mensagens ao mundo dos humanos.

· Todo o animal tem seus próprios talentos. O estudo de seus talentos revelará o tipo de medicina, magia, e força que poderá ajudar você a se desenvolver.

· Os animais de poder são, usualmente selvagens, não domesticados. Há poucas exceções, mas, mesmo essas exceções são um caminho para o animal de força verdadeiro. Ou seja, eles servem como elo. Exemplo: um cão pode ser um elo para o lobo ou coiote. O gato pode ser um elo para um leão, pantera, tigre, etc. É um caminho de passagem para levar ao animal de poder verdadeiro, e não pode ser desconsiderado. É como se fosse uma etapa de preparação.

· Os animais (e suas energias) trabalham em você. Você é um microcosmo. As energias do Universo estão dentro de você, o Universo vive em você.

· O animal escolhe a pessoa, e não o contrário. Quem busca um animal, geralmente é porque encontra o ego no meio do caminho. A pessoa pode escolher um animal por causa do seu glamour, e isto não trás resultados e sim frustrações. Nenhum animal é pior, ou melhor, do que outro. A medicinal de cada animal é única. Muito melhor você estar poderoso usando a medicina do rato, do que ineficaz na medicina do Urso. O seu maior sucesso está em trabalhar com o animal que vem para você.

· Você deve desenvolver um relacionamento com seu animal. Para se comunicar com eles é necessário respeito. Você deve aprender seus pontos de vista. Eles devem aprender a confiar em você e suas limitações. E você deve aprender a confiar neles e suas limitações. Isso requer tempo, paciência e prática.

· Você deve aprender a honrar seu totem e sua medicina para que esteja efetivo em sua vida. Quanto mais efetivo, mais poderosos eles se tornam. Poderá pendurar gravuras, estátuas. Lendo e aprendendo como eles se comportam. Usando camisetas, pequenos símbolos e imagens, dando aos amigos como presente. Esses fetiches são um lembrete da força e espírito de seu totem animal.

· Fazer doações para organizações de animais selvagens.

· Dançar é uma forma poderosa de honrar seu animal. Desenvolva a mímica de seus movimentos. Guardando-o vivo dentro de sua imaginação. Você poderá um dia ver o seu animal no seu próprio rosto, sentir sensações físicas. Por exemplo: Quando está bem sintonizado com o coiote, poderá sentir seu nariz alongando como se fosse um focinho.

· A imaginação é um elo real para seu animal.

· Quando você aprende a trabalhar com a medicina de seu animal, isto se torna uma porta para conectar com outro do reino animal. Você não estará limitado a só um totem. Outros podem somar coisas que o seu próprio não tem. Trabalhando com a força de seu animal, ele ensina como se alinhar com os outros. Através de seu animal de poder, você pode se alinhar com as energias de outros animais e de outras existências.

· Embora existe o totem maior para a sua vida, que é seu animal de poder. Você poderá ter um para um dia determinado, ou trabalhar com outro em determinado período de sua vida. A chave está em você manter uma forte conexão com o seu principal, isso expande o seu conhecimento e abre a ponte para os demais mais facilmente.

· Várias pessoas podem Ter o mesmo totem. Podem ser formados grupos onde todos os participantes trabalhem o mesmo espírito animal. Porém a energia poderá se manifestar diferente para cada participante.

Certamente, e agora mais que nunca, é necessário para a humanidade se reconectar com a MãeTerra.

Harmonia - Amor - Paz e Luz

Léo Artése

O SAGRADO NAS CULTURAS INDÍGENAS


shaman_meia_idade

 

 

Por Benedito Prezia[1]         

 

 

Resumo

Este estudo mostra a dimensão religiosa dos indígenas do Brasil, nas suas mais diversas etnias, privilegiando os povos Tupi e Guarani, pois foram eles os que mais marcaram as práticas religiosas populares do povo brasileiro. Tenta mostrar também o desafio para os cristãos em conhecer essa dimensão nas populações indígenas, em vista do diálogo inter-religioso e da prática macro-ecumênica, tão urgente para as Igrejas cristãs.

 

 

 

"Há cinco séculos enfrentamos a evangelização no Brasil. Dentro desses séculos, só vimos a dominação, a exploração e o extermínio do nosso povo e a perda da nossa identidade cultural indígena. Para nós, a Boa Nova já existe dentro das nossas convivências."

Esse brado, em defesa da cultura e religiosidade indígenas, foi lançado pela delegação de povos nativos, presente ao V Congresso Missionário Latino-americano, COMLA-5, em Belo Horizonte, em julho de 1995. [2]

É também um desafio lançado às Igrejas cristãs, que muito pouco conhecem e respeitam essas expressões religiosas.

Durante muito tempo falou-se em índio, como se fosse uma categoria única, biológica, sem levar em conta a realidade cultural. Esse conceito foi uma criação colonial, baseada num erro histórico, já que navegantes espanhóis, ao chegar nas Antilhas, acreditavam ter chegado nas Índias.

Na realidade o que existe é uma variedade enorme de povos com história e culturas diferentes, vivendo nesse continente há mais de 20 mil anos.

            Ao longo da história do Brasil, os indígenas, isto é, os nativos, sempre foram definidos pela negação: não têm escrita, não têm religião  -- "pois não têm templos nem ídolos" , como dizia um jesuíta na época colonial --, não têm lei, não têm governo e não têm história.

O que antes era visto como ausência ou limitação, vê-se que é simplesmente uma maneira diversa de ser. Não são piores e nem melhores do que nós. São simplesmente diferentes.

Apesar da diversidade cultural, nesse texto vamos abordar as características religiosas que lhes são comuns ou encontradas em muitos povos do Brasil, privilegiando de certa forma os povos Tupinambá e Guarani, que foram os que mais marcaram nossa cultura brasileira e nossa religiosidade popular, por terem sido os povos com os quais convivemos por mais tempo.

 

 

1.      O PROFUNDO SENTIDO DE DEUS

A idéia de Deus perpassa todas as religiões indígenas. Muitos desses povos têm a noção de um Deus criador, mas de um Deus que cria e, em seguida, se afasta, intervindo no mundo através de entidades espirituais ou heróis civilizadores, isto é, humanos com grandes poderes. Outras vezes esse herói é também o ancestral de um povo.

Para os Tupinambá, povo que ocupou grandes áreas da costa brasileira, Deus criador era chamado de Monã, que significa o ancião. Criou o céu, a terra, os homens e tudo o que existe. Devido à maldade dos homens destruiu essa primeira terra pelo fogo. Houve apenas um sobrevivente, Maíra Mona, que pediu que a restaurasse. Uma grande chuva apagou o incêndio, surgindo aí uma nova terra. Um conflito entre dois irmãos -- Tamoindaré e Arikuté, descendentes de Maíra-Monã --, desencadeou uma nova catástrofe, um dilúvio, que destruiu novamente a terra. Salvaram-se apenas esses dois irmãos, com suas esposas, porque conseguiram subir em cima de uma palmeira e de um jenipapeiro. De Tamoindaré descendem os Taupinambá e de Arikuté, descendem os Temiminó e isso explica porque até hoje são inimigos.[3]

Os Guarani chamam a Deus pelo nome de Nhanderu, o nosso primeiro pai. Foi ele quem dispersou as trevas primordiais com a luz de sua sabedoria.[4] Criou o mundo, colocando-o sobre duas traves cruzadas, que por sua vez são apoiadas sobre quatro palmeiras. No dia em que essas palmeiras desabarem, será o fim do mundo material.[5]

O presente mundo é apenas uma cópia ou sombra do verdadeiro mundo, que fica no Além. Por isso todo empenho dos Guarani é alcançar o Yvy marã' ei, a Terra sem Mal, onde as pessoas não envelhecem, onde não é preciso trabalhar, onde a caça já vem aos pés do caçador e onde não há sofrimento e nem morte. [6]

Muitas outras sociedades indígenas não possuem a idéia de um Deus criador, como é o caso do povo Xavante e dos povos de língua jê. Seus mitos de origem começam com um mundo já criado, havendo demiurgos que vão amparar e proteger os humanos.[7]

Entre outros povos há um mundo povoado por diferentes categorias de seres, com poderes muito diferenciados, que trazem benefícios e malefícios aos humanos.[8]

 

 

 

2. O SAGRADO E O PROFANO

No universo indígena não há separação entre o sagrado e o profano. Tudo é sagrado: a natureza, a vida e a morte.

A doença não é vista como algo físico, corpóreo, mas conseqüência de um malefício espiritual praticado por alguém. É o que chamamos de feitiço e que pode ser controlado pelo pajé. O feitiço existiu em todos os povos da antiguidade e ainda existe em muitas culturas. Entre os Guarani é chamado de mohã vai.[9]

Pode ser provocado por diversas maneiras como restos de comida, objetos pessoais ou elementos ou adornos do corpo, como um fio de cabelo ou uma peça de roupa. Há casos em que a última pessoa que tenha visitado um doente e este venha a falecer, possa ser  acusada de provocar aquela morte.

Para combater o feitiço há rezas fortes, que entre os Guarani são chamadas de nheengaraí.[10]

Quando um pajé não consegue tirar um feitiço ou evitar a morte de alguém, é considerado incompetente, podendo mesmo ser responsabilizado por aquela morte. Nesse caso ele precisa mudar de aldeia para não ser perseguido ou desmoralizado ou até morto.

Essa união entre o sagrado e o profano faz com que todas as ações precisam ser iniciadas com uma oração ou um sinal religioso. Por isso o Guarani reza antes de entrar na mata para caçar; reza para pedir a bênção dos grãos, que serão plantados; reza para abençoar a erva mate, usada no chimarrão; reza antes de viajar, reza antes de fazer uma fala, pedindo que Deus o inspire para dizer apenas as coisas boas; reza enfim sempre e em todo lugar.

Para os Guarani não havia canto profano. Todo canto era sagrado, fruto de uma inspiração divina, recebido geralmente através do sonho.[11] Hoje, com a comercialização da cultura, começaram a fazer cantos profanos, como os gravados em CDs para serem comercializados, não sem protestos dos mais velhos. 

O brasileiro deve ter herdado dos indígenas esse hábito de colocar o nome de Deus e de Jesus em muitos locais, ditos "profanos", como na frente ou no pára-choque do caminhão, em muros e out-door. Não é de se admirar que após uma vitória numa partida internacional de futebol, vamos presenciar jogadores brasileiros, de joelhos, de mãos dadas, rezarem o pai-nosso. Ou dizer com muita freqüência "se Deus quiser", embora seja também uma recomendação do Alcorão, trazida por nossos antepassados portugueses. [12]

 

 

3. A NATUREZA COMO LUGAR SAGRADO

Nas sociedades tradicionais a natureza é sempre vista com o olhar religioso. Os quéchuas do Peru  chamam a terra de mãe – pacha mama.

Os povos indígenas da América do Norte também tiveram essa percepção. Muito conhecida e antológica é a carta que o cacique Seatle enviou ao presidente dos Estados Unidos, explicando porque se recusava a vender parte de suas terras:

Cada pedaço dessa terra é sagrado para o meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia nas praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória de meu povo. Somos parte dessa terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, os potros com seu corpo quente e o homem, enfim todos pertencem à mesma família.Essa água brilhante que corre pelos riachos e rios não é apenas água, mas é o sangue de nossos antepassados. O murmúrio das águas é a voz de nossos ancestrais. Os rios são nossos irmãos e saciam nossa sede.[13]

Entre os povos indígena do Brasil há também esse respeito à terra, não só como chão sagrado, que alimenta e dá vida, mas também como morada dos espíritos.

Davi Kopenawa, do povo Yanomami, afirma que

dentro das serras moram os Xapori, Hekura, os espíritos da natureza. E entre as serras têm os caminhos dos Xapori. Ninguém vê, só pajé conhce essa ligações. As serras são lugares sagrados, lugares onde nasceram os pirmeiros Yanomami, onde suas cinzas foram enterradas. Nossos velhos deixaram que as serras sejam respeitadas, não queremos que sejam destruídas. Queremos que estes lugares sejam preservados para não acabar com nossa história e com nossos espíritos.[14]

Por considerarem os rios igualmente morada dos espíritos, evitam urinar em suas águas.

Muitas são as entidades que protegem a mata e os animais, sendo chamados de donos da mata, como é o Curupira, ou donos dos animais. Cada espécie tem uma entidade protetora. Estes são os guardiões, que punem os que faltam de respeito à natureza e os caçadores que matam fêmeas com filhotes ou que caçam simplesmente por prazer.

Essa relação de amizade quase humana com os elementos da natureza encontramos entre o povo Mynky, que vive no oeste do Mato Grosso.

Elizabeth Rondon Amarante, que vive com eles há mais de 20 anos, deixou-nos esse belo relato:

Wajakuxi parece não ter pressa. Acerta uma machadada e pára. Alisa o tronco, contempla lá em cima a copa da árvore e fala sozinho. Sozinho não: conversa com a árvore, e como que pede perdão de a estar matando. Mais dois golpes e torna a acariciar e torna a contemplar e torna a conversar. Sua atitude se explica: a mata é sua morada e cada árvore tornou-se para ele um ser amigo. Derruba-se por necessidade, porque o plantio da roça é subsistência do povo.[15]

E continua a descrever esse povo:

O Mynky é um povo caçador.(...) Caçar é seu trabalho, é sua missão de marido e de pai. Caçar é sempre um prazer, uma festa e muitas vezes um ritual. (...) Ele é dono desse universo, o dono que se serve da natureza, mas não depreda; o dono que mata o animal, mas não esperdiça; o dono que derruba a árvore, mas não devasta a floresta.[16]

E como diz Viveiros de Castro, ao contrário de povos de outros continentes, os povos indígenas americanos apresentam religiões muito próximas da natureza e muito austeras, do ponto de vista material. "São muito mais religiões da palavra, da experiência onírica [do sonho], do transe. Nesse sentido são muito mais místicas e muito menos materialistas".[17]

 

 

4.      CULTURA DA PARTILHA E DO ACOLHIMENTO

A generosidade é a marca da cultura indígena. Para esses povos não há propriedade particular. O que é de um é de todos.

Os europeus, ao chegarem aqui, ficaram surpresos com essa realidade. Hans Staden, alemão que viveu vários meses entre os Tupinambá como prisioneiro, na metade do século 16, assim os descreveu: "Não existe entre eles propriedade particular, nem conhecem dinheiro. Seu tesouro são penas de pássaros. Quem as tem, é rico e quem tem cristais para [enfeitar] os lábios, é dos mais ricos." [18]

Não havia e, ainda não há na maior parte das aldeias, diferença social, isto é, pobres e ricos. A disparidade social existente no mundo ocidental muito chocou os Tupinambá, que estiveram na França, no início do século 17, e que serviu de reflexão filosófica para o pensador francês Montaigne: "Observaram que há entre nós gente bem alimentada, gozando as comodidades da vida, enquanto metades [uma grande parte] de homens emagrecidos, esfaimados, miseráveis mendigam às portas dos outros". [19]

            Para evitar acumulação da propriedade, certos povos criaram rituais que realizam a redistribuição dos bens, acumulados ao logo do tempo, como ocorre ainda hoje entre os Tapirapé do Mato Grosso. É o rito do kaawin-ô, realizado a cada dois ou três anos. Prepara-se uma grande quantidade de cauim, sendo que parte é levada numa cuia para que os adultos que vão participar possam tomar um pouco dele. Ao provar a bebida, a pessoa cospe um pouco no chão, mostrando que aceita participar desse ritual. Nesse momento as pessoas que acompanham o grupo cerimonial têm o direito de pegar o que desejarem da casa daquela pessoa. "Há ao mesmo tempo desprendimento e audácia, que podem causar admiração e medo" comenta Ir. Odila, que vive há anos com eles.[20] Em pouco tempo "cama, colchão, cadeira, fogão a gás, pasta de urucum, arara, galinha, tudo muda de proprietário em apenas uma manhã",[21] num grande movimento redistributivo.

            Entre os Bororo os bens da pessoa desaparecem no momento da morte. Um dos elementos do ritual consiste em queimar os pertences do morto, destruindo assim a idéia de  herança. O que se transmite são os valores morais e espirituais.[22]

Entre outros povos esse processo é feito de forma mais espontânea e em algumas comunidades praticamente não existe a noção de propriedade particular, tudo podendo ser de todos.

Um outro aspecto é o acolhimento. Nessas comunidades a família não é restrita apenas ao pai e à mãe, como em nossa sociedade, mas é formada pela família extensa, que inclui os avós, os tios maternos e paternos. Se faltar um dos membros do casal -- o pai ou a mãe, devido à morte ou separação --, a criança não fica desamparada, pois é acolhida por outra pessoa da família, como o tio ou o avô. Isso explica porque nas comunidades indígenas não existecriança abandonada ou menor carente.[23]

 

 

 

 

5.      UM CULTO FESTIVO

Ao contrário de nossa cultura ocidental, onde a oração geralmente é um ato pessoal e muitas vezes silencioso, nas culturas indígenas o culto é feito de forma coletiva, com cantos e danças. A dança sempre é ritual e religiosa.

Certa vez, na aldeia Tapirapé, um indígena ao ver uma das Irmãs de Foucauld, que vivia entre eles, rezando na capela, sozinha e de cabeça baixa, perguntou mais tarde porque ela estava triste.

Assim os rituais são sempre festivos, e celebrando com abundância de comida e bebida.

Como diz o antropólogo padre Bartomeu Melià, "a festa guarani pode ser considerada como um sacramento, segundo o qual os produtos materiais que serão consumidos são benzidos e rezados no canto-dança religioso".[24] E continua comentando: "A festa guarani não é apenas um cerimonial, mas a metáfora concreta de uma economia de reciprocidade vivida religiosamente".[25]

Por isso pode-se medir a vitalidade de uma aldeia pela freqüência de suas festas. A falta de festa, de celebrações, é sinal de que a comunidade está em crise, ou por falta de rezadores e líderes, por desestruturação ou por falta de comida.

Mesmo quando o ritual é mais triste, como na festa do Kiki -- ritual fúnebre dos Kaingang de Santa Catarina --, termina sempre com uma grande celebração, com muita bebida e dança ao redor das fogueiras.

Esse traço festivo encontra-se no catolicismo popular, onde as comemorações  religiosas são marcadamente festas profanas, sendo que algumas delas entraram para o folclore brasileiro, como as festas juninas. Nelas vamos encontrar fortes traços não só da festa do milho, tradicional nas culturas tupi e guarani, como também na festa kaingang do Kiki, onde há a fogueira e a bebida quente. [26]

Não sem razão José Honório Rodrigues escreveu, ao comentar sobre a cultura brasileira no início do século 19,  que "a religião perdeu, entre nós, o ar sinistro das práticas peninsulares, e ganhou alegria, adaptando-se ao povo, às populações mestiças, amigas do batuque, do foguetório, dos repiques de sinos e alheias às sutilezas do dogma".[27] E isso se deve muito às influências culturais indígenas e africanas.

 

 

6.      POVOS TOLERANTES E SEM PROSELITISMO

Os indígenas são povos de religiões sem dogmas. O importante para eles não é um código escrito e imutável, mas as tradições orais baseadas em mitos e nas falas dos mais velhos. As referências mais importantes são a tradição do grupo étnico e a inspiração divina, que vão orientar a conduta pessoal e comunitária.

Os povos indígenas são tolerante, agregantes e não missionários. Esse traço vamos encontrar, sobretudo, na umbanda -- a mais brasileira das religiões --, justamente por esse caráter sincrético, onde encontramos elementos católicos, africanos, indígenas, sertanejos e espíritas.

Essa característica encontra-se também na religião popular brasileira, não só entre os católicos, que são bastante sincréticos na sua prática religiosa, como também entre os pentecostais. Seguramente essa é uma das explicações para a proliferação de Igrejas pentecostais, marcadas por uma religiosidade festiva e emocional, centrada no milagre, no exorcismo e na garantia da salvação.

A rigidez dogmática de algumas Igrejas protestantes foi compensada no pentecostalismo pela possibilidade de se criar novas Igrejas, surgidas a partir da visão particular do pastor, que encarna bem a figura do pajé indígena. É a concretização de uma espécie de Igreja doméstica, com um culto familiar.[28]

Uma coisa que diferencia a tradição indígena das igrejas evangélicas é o extremado proselitismo dessas últimas, que contrasta com o profundo respeito que o indígena tem  pela opção individual de cada um.

Para os indígenas a noção de salvação -- que para eles é alcançar a Outra Terra, a Terra sem Mal --  está muito mais ligada à pertença da pessoa àquele determinado grupo étnico e ao cumprimento de suas normas, do que à adesão à uma doutrina ou à uma perfeição pessoal, como no caso de várias religiões ocidentais.

  

7.      O PAJÉ E O XAMANISMO

O pajé, nome de origem tupi, é o mesmo que xamã, termo usado na antropologia, originário de uma língua siberiana.

Ele é o intermediador entre o mundo material, em que vivemos e o mundo espiritual dos espíritos. Exerce não só a função de sacerdote como também a de médico. Além de ter o segredo das plantas, vai atuar nas causas das doenças, descobrindo as forças espirituais que a desencadearam.

Durante muito tempo o xamã foi visto como uma pessoa ligada a cultos primitivos, "arcaicos" e que seriam abandonados à medida que as pessoas tivessem acesso às culturas "superiores". Tal situação não ocorreu, pois o xamanismo tem se desenvolvido muito nos países de alta tecnologia, onde as pessoas estão buscando nas religiões ligadas à natureza respostas aos problemas da vida moderna.

No xamanismo indígena, o pajé não é uma função hereditária e nem é fruto de uma opção pessoal, embora entre alguns povos da Amazônia, como os Araweté, do Pará, todos são potencialmente pajés.[29]

Mas na maioria dos povos indígenas, a pessoa é escolhida por entidades espirituais, manifestadas, sobretudo, por sonhos ou pela capacidade de previsões futuras. Entre os Pankararu, de Pernambuco, esse sinal é dada por uma semente que aparece à pessoa, dizendo que ela poderá assumir a função de praia, quando a pessoa, vestida com roupa ritual participa de determinadas danças religiosas.

Uma vez escolhida, caso a aceite, essa pessoa passa por um período de preparação com outros pajés, para aprender rituais e o contato com os espíritos.[30]

Basicamente compete ao pajé curar as pessoas, predizer o futuro, expulsar espíritos maus, comunicar-se com os espíritos e compor cantos.

            O transe na pajelança pode ocorrer com a ingestão de substâncias alucinógenas. O tabaco, usado no cachimbo é importante elemento do ritual e serve para a cura e como purificador do ambiente, como ocorre com os Guarani Mbyá.

            Nessa interpenetração entre os vários mundos, muitas vezes o pajé pode assumir a figura de um animal, como relata Orlando Villas Boas no citado livro[31], o que facilita seu contato com o mundo espiritual.

Pelo poder que têm, os pajés são temidos e respeitados. Como escreveu Frei Claude d'Abbeville, no século 17, 

os índios entretanto apreciam os pajés; tratam-nos bem em qualquer lugar que se encontrem. São honrosamente mencionados em seus cantos e bem acolhidos nas danças e cauinagem [festas com cauim] e em todas as cerimônias, pois todos acreditam que as coisas correm bem quando são amigos dos pajés e, ao contrário, muito mal, se não os agradam.[32]

Não sem razão Gunter Kroemer afirma que "os povos indígenas resgataram o aspecto coletivo da magia", que nosso mundo racionalista havia perdido, vindo daí o grande interesse atual pelo xamanismo. [33]

Interferindo no mundo material, sobretudo na natureza, podemos dizer que o xamanismo possui também um papel social e ecológico, influenciando a comunidade na preservação da natureza, como observa o citado autor.[34]

Além dos pajés-auxiliares, em algumas culturas as mulheres poder exercer essa função, tendo persistido essa figura em nossas benzedeiras.

Entre os povos tupis havia também o pajé andarilho, chamado karaíba, espécie de missionário ambulante, que circulava pelas várias aldeias, exortando e fazendo curas.[35]

Esse traço do pajé ambulante permaneceu, sobretudo no Nordeste, na figura dos beatos, que através de uma vida penitente e pobre, que vão de povoado em povoado reconstruindo oratórios, recitando o terço e ladainhas e até aglutinando pessoas, em volta de si, num projeto de vida comunitária, como foi o caso do Beato Lourenço, do Caldeirão, no Ceará, na época do pe. Cícero,[36] ou os líderes político-comunitários, como Antônio Conselheiro, na Bahia, ou o beato João Maria, em Santa Catarina, no começo do século passado.[37]

 

 

8.      AS ALMAS E A VIDA DEPOIS DA MORTE

            O mundo espiritual é muito presente entre os povos indígenas, pois é marcado pela busca de uma terra boa, um mundo onde não haverá sofrimento e nem morte.

            Os povos tupis, em geral, e os Guarani, em particular, acreditam em três almas: a espiritual, responsável pelas boas inclinações; a animal, da qual derivam o temperamento e as más inclinações; e a sombra.[38]

Quando a pessoa morre, a alma espiritual inicia a caminhada para a Terra sem Mal, enquanto a alma material fica vagando perto da aldeia ou no cemitério, onde foi enterrada, até que o corpo se decomponha. Por isso muitos Guarani evitam passar por esses lugares.

A morte violenta ou acidental é uma situação difícil para muitos desses povos, pois é uma situação em que não houve tempo para o falecido se preparar. Por isso sua alma pode interferir negativamente junto à comunidade. Isso também se vê na cultura brasileira, onde o local, onde alguém morreu de forma violenta ou num acidente, é marcado com uma cruz.

O culto das almas, que têm tanto espaço na religião popular, encontra aí uma de suas raízes.

O sonho é o momento em que a alma sai do corpo, indo para o Além, podendo entrar em contato com outras pessoas e outros lugares. A doença é a saída temporária da alma, sendo que a morte é a saída definitiva.

A busca do paraíso, chamado de Terra de Maíra ou Terra sem Mal, foi sempre muito forte entre os povos Tupi, levando-os a constantes migrações, sobretudo em épocas de crise social.

Alguns o situam a Oeste, depois das altas montanhas (os Andes), o que levou um grande grupo Tupi a migrar para o altiplano peruano, tendo alguns sobreviventes dessa longa peregrinação chegado à cidade de Quito, no Equador, no final do século 16. [39]

Mais comumente é situado a Leste, depois das grandes águas, isto é, depois do oceano. Por isso os europeus, ao chegarem aqui, foram considerados pessoas divinas, vindas desse mundo, recebendo nomes religiosos, como foi o caso dos franceses, chamados de Maíra, e dos portugueses, de Karaíba.

Alguns indígenas aceitavam de bom grado embarcar para a Europa, acreditando estar indo para essa terra, como se lè em relatos do século 16.[40] A presença Tupi em todo o litoral sudeste e nordeste, a partir do século 10, e a vinda dos Guarani em épocas recentes, mostram que essa localização era muito presente.

Era uma terra de felicidades e de fartura e onde não havia sofrimento ou doença. "O mantimento há de crescer por si, sem serem plantados, relata Anchieta, e as caças do mato se lhe hão de vir a meter em casa." [41] E conclui o missionário: "As velhas se hão de tornar moças e para isso fazem lavatórios de algumas ervas com que [se] lavam."

Para eles a vida presente era imperfeita e, de certa forma, má. Por isso todo o esforço do ser humano devia ser em alcançar a outra terra, a morada de Maíra.

Os pajés seriam os únicos a entrar em vida. Segundo os Tupinambá, para lá vão apenas as almas dos valentes e das mulheres que demonstrassem bravura na guerra ou que tivessem ajudado seus maridos nos rituais de morte. Os medrosos, "que não lutaram para defender sua terra" e os efeminados não poderiam entrar. [42]

Seguramente essa idéia de paraíso esteja na raiz de muitos movimentos messiânicos nos Brasil, como o de Antônio Conselheiro, na Bahia, o do Contestado, em Santa Catarina[43] e no movimento pouco conhecido, ocorrido em Catulé, no nordeste de Minas Gerais.[44]

A idéia de uma terra boa no Além domina também a religiosidade popular brasileira, haja vista a quantidade de igrejas evangélicas que prometem a salvação imediata para seus adeptos, chegando muitas anunciar a volta próxima de Cristo, numa visão milenarislista. 

 

CONCLUSÃO

            Podemos concluir esse breve estudo mostrando que esses ideais religiosos indígenas poderão inspirar os sonhos de um mundo mais humano e mais cristão, dando-nos esperança e despertando utopias. E com Dom Pedro Casaldáliga, dizemos:

Vós sois nossa causa perdida salvadora!

Vós sois a necessária e urgente Utopia!

A nova inevitável Esperança de todo um continente

Rogai por nossas vidas sem arco e sem estrelas! [45]

Texto extraido da Revista Uniclar, São Paulo: Publicação da Faculdade Claretiano, Ano IX - Numero 1, 2007.

Revista comemorativa dos 10 anos de Ciências da Religião


[1] Doutorando em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo-PUC. Professor de Fenômeno Relgioso no Instituto Teológico de Santo André (SP) e coordenador da Pastoral Indigenista da Arquidiocese de São Paulo.

benedito.prezia@yahoo.com.br

 

[2] In: PREZIA, Benedito. Caminhando na luta e na esperança. 30 anos do Cimi e 60 anos da pastoral indigenista São Paulo: Loyola, 234.

[3] Mito recolhido por André Thévet em 1565. In: MÉTRAUX. A. A religião dos Tupinambás, 1979, p. 197-201Apud: PREZIA, B. Indígenas em São Paulo, ontem e hoje, 2004, p. 15-16.

[4] In: CADOGAN, L. La literatura de los Guaranies. México: E.d. Joaquín Mortiz, 1984, p. 51-53.

[5] Id., p. 57-63

[6] SCHADEN, E. Aspectos fundamentais da cultura Guarani. São Paulo: E.P.U./Edusp, 1974, p. 161-165.

[7] MAYBURY-LEWIS, D..A sociedade Xavante. 1984, p. 349-351.

[8] Ver VIVEIROS DE CASTRO, E. O papel da religião no sistema social dos povos indígenas, 1999, p. 22.

[9] SCHADEN,  id.,  p. 124-131.

[10] Id., ib.

[11] NIMUENDAJU, C. As lendas da criação e destruição do mundo., 1997,  p. 77. 

[12] "Nunca digas de coisa alguma 'farei isso amanhã' sem acrescentar: Se Deus quiser"  Alcorão, cap. 93. In: MUHAMAD, A .Mohammad, o mensageiro de Deus, Centro Divulg. Islã,  1989, p. 73.

[13] In: Carta da terra. ONU, s/d.

[14] In: HECK, E. & PREZIA, B. Povos Indígenas: terra é vida. São Paulo: Atual, 2005, p. 44.

[15] As bem-aventureanças do povo Myky, 1983, p. 34

[16] Id.,  p.14-15.

[17] O papel da religião..., p. 24.

[18] Duas viagens ao Brasil, 1988, p. 172.

[19] Ensaios, 1972,  p. 109.

[20] Apud Ir. Clara. In: IRMÃZINHAS DE JESUS. O renascer do povo Tapirapé, 2002, p. 252.

[21] Id., ib.

[22] Ver BORDIGNON, M.. A vida renovada na morte. Porantim, Brasília, supl. cultural, 3, abr. 1988, p. 4.

[23] Ver o texto de Paulo SUESS, O menor bem amparado: a criança indígena. Vida Pastoral, São Paulo, XXVIII, v. 133,  mar/abr., 1987, p. 2-7

[24] A experiência religiosa guarani. In: MARZAL e outros O rosto índio de Deus, 1989, p. 323.

[25] Id. P. 321.

[26] Ver PREZIA, B. Festa Junina: a mais indígena das festas populares. Porantim,  XXVI, 276,  jun.-jul., 2005, p. 11.

[27] Independência: revolução e contra-revolução, 1975, v. 2,  p. 149.

[28] Ver VIVEIROS DE CASTRO,  id.,  p. 16.

[29] VIVEIROS DE CASTRO, id., p. 15.

[30] Ver de Orlando Villas Boas A arte dos pajés, São Paulo: Globo,  2000,  sobretudo as pág. 62 a 65.

[31] Ver o episódio O veadinho da serra do Cachimbo, pág. 91.

[32] História da missão dos padres capuchinhos na Ilha do Maranhão, 1975,  p. 254.

[33] A espiritualidade e os povos indígenas. Por uma terra sem males, 2002,  p. 15.

[34] Id., ib.

[35] MÉTRAUX, id., p. 66.

[36] Ver PREZIA, B. Caldeirão: os sem-terra do Juazeiro, Porantim, Brasília, ago, 2000,  p. 10.

[37] GALLO, Ivone Cecília. O contestado, o sonho do milênio igualitário. Campinas, Ed. Unicamp, 1999.

[38] MELIÀ, id., p. 310-311.

[39] GANDAVO, P. História da Província de Santa Cruz, 1980,  p. 144.

[40] Ver A Nova Gazeta da Terra do Brasil, 1514. In: RIBEIRO, D. & MOREIRA NETO, C. A fundação do Brasil, 1992, p. 114.

[41] ANCHIETA. Breve Informação do Brasil. In: Textos históricos, 1989,  p. 61.

[42] Ver METRAUX, A religião dos Tupinambás, 1979, p. 112.

[43] Ver GALLO, Ivone Cecília, O contestado, o sonho do milênio igualitário, 1999.

[44] Ver o livro de QUEIROZ, Renato da Silva, A caminho do paraíso, o surto messiânico-milenarista do Catulé, 1995.

[45] Ameríndia, morte e vida. Petrópolis: Vozes, 2000,  p. 109.

 

Bibliografia

 

AMARANTE, Elizabeth Rondon. As bem-aventuranças do povo Myky. Petrópolis: Vozes, 1983.

ANCHIETA, Joseph. Textos históricos. São Paulo: Loyola, 1989.

BORDIGNON, Mário. A vida renovada na morte. Porantim, Brasília, suplemento cultural, 3, abr. 1988, p. 4.

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Por Benedito Prezia[1]         

 

 

Resumo

Este estudo mostra a dimensão religiosa dos indígenas do Brasil, nas suas mais diversas etnias, privilegiando os povos Tupi e Guarani, pois foram eles os que mais marcaram as práticas religiosas populares do povo brasileiro. Tenta mostrar também o desafio para os cristãos em conhecer essa dimensão nas populações indígenas, em vista do diálogo inter-religioso e da prática macro-ecumênica, tão urgente para as Igrejas cristãs.

 

 

 

"Há cinco séculos enfrentamos a evangelização no Brasil. Dentro desses séculos, só vimos a dominação, a exploração e o extermínio do nosso povo e a perda da nossa identidade cultural indígena. Para nós, a Boa Nova já existe dentro das nossas convivências."

Esse brado, em defesa da cultura e religiosidade indígenas, foi lançado pela delegação de povos nativos, presente ao V Congresso Missionário Latino-americano, COMLA-5, em Belo Horizonte, em julho de 1995. [2]

É também um desafio lançado às Igrejas cristãs, que muito pouco conhecem e respeitam essas expressões religiosas.

Durante muito tempo falou-se em índio, como se fosse uma categoria única, biológica, sem levar em conta a realidade cultural. Esse conceito foi uma criação colonial, baseada num erro histórico, já que navegantes espanhóis, ao chegar nas Antilhas, acreditavam ter chegado nas Índias.

Na realidade o que existe é uma variedade enorme de povos com história e culturas diferentes, vivendo nesse continente há mais de 20 mil anos.

            Ao longo da história do Brasil, os indígenas, isto é, os nativos, sempre foram definidos pela negação: não têm escrita, não têm religião  -- "pois não têm templos nem ídolos" , como dizia um jesuíta na época colonial --, não têm lei, não têm governo e não têm história.

O que antes era visto como ausência ou limitação, vê-se que é simplesmente uma maneira diversa de ser. Não são piores e nem melhores do que nós. São simplesmente diferentes.

Apesar da diversidade cultural, nesse texto vamos abordar as características religiosas que lhes são comuns ou encontradas em muitos povos do Brasil, privilegiando de certa forma os povos Tupinambá e Guarani, que foram os que mais marcaram nossa cultura brasileira e nossa religiosidade popular, por terem sido os povos com os quais convivemos por mais tempo.

 

 

1.      O PROFUNDO SENTIDO DE DEUS

A idéia de Deus perpassa todas as religiões indígenas. Muitos desses povos têm a noção de um Deus criador, mas de um Deus que cria e, em seguida, se afasta, intervindo no mundo através de entidades espirituais ou heróis civilizadores, isto é, humanos com grandes poderes. Outras vezes esse herói é também o ancestral de um povo.

Para os Tupinambá, povo que ocupou grandes áreas da costa brasileira, Deus criador era chamado de Monã, que significa o ancião. Criou o céu, a terra, os homens e tudo o que existe. Devido à maldade dos homens destruiu essa primeira terra pelo fogo. Houve apenas um sobrevivente, Maíra Mona, que pediu que a restaurasse. Uma grande chuva apagou o incêndio, surgindo aí uma nova terra. Um conflito entre dois irmãos -- Tamoindaré e Arikuté, descendentes de Maíra-Monã --, desencadeou uma nova catástrofe, um dilúvio, que destruiu novamente a terra. Salvaram-se apenas esses dois irmãos, com suas esposas, porque conseguiram subir em cima de uma palmeira e de um jenipapeiro. De Tamoindaré descendem os Taupinambá e de Arikuté, descendem os Temiminó e isso explica porque até hoje são inimigos.[3]

Os Guarani chamam a Deus pelo nome de Nhanderu, o nosso primeiro pai. Foi ele quem dispersou as trevas primordiais com a luz de sua sabedoria.[4] Criou o mundo, colocando-o sobre duas traves cruzadas, que por sua vez são apoiadas sobre quatro palmeiras. No dia em que essas palmeiras desabarem, será o fim do mundo material.[5]

O presente mundo é apenas uma cópia ou sombra do verdadeiro mundo, que fica no Além. Por isso todo empenho dos Guarani é alcançar o Yvy marã' ei, a Terra sem Mal, onde as pessoas não envelhecem, onde não é preciso trabalhar, onde a caça já vem aos pés do caçador e onde não há sofrimento e nem morte. [6]

Muitas outras sociedades indígenas não possuem a idéia de um Deus criador, como é o caso do povo Xavante e dos povos de língua jê. Seus mitos de origem começam com um mundo já criado, havendo demiurgos que vão amparar e proteger os humanos.[7]

Entre outros povos há um mundo povoado por diferentes categorias de seres, com poderes muito diferenciados, que trazem benefícios e malefícios aos humanos.[8]

 

 

 

2. O SAGRADO E O PROFANO

No universo indígena não há separação entre o sagrado e o profano. Tudo é sagrado: a natureza, a vida e a morte.

A doença não é vista como algo físico, corpóreo, mas conseqüência de um malefício espiritual praticado por alguém. É o que chamamos de feitiço e que pode ser controlado pelo pajé. O feitiço existiu em todos os povos da antiguidade e ainda existe em muitas culturas. Entre os Guarani é chamado de mohã vai.[9]

Pode ser provocado por diversas maneiras como restos de comida, objetos pessoais ou elementos ou adornos do corpo, como um fio de cabelo ou uma peça de roupa. Há casos em que a última pessoa que tenha visitado um doente e este venha a falecer, possa ser  acusada de provocar aquela morte.

Para combater o feitiço há rezas fortes, que entre os Guarani são chamadas de nheengaraí.[10]

Quando um pajé não consegue tirar um feitiço ou evitar a morte de alguém, é considerado incompetente, podendo mesmo ser responsabilizado por aquela morte. Nesse caso ele precisa mudar de aldeia para não ser perseguido ou desmoralizado ou até morto.

Essa união entre o sagrado e o profano faz com que todas as ações precisam ser iniciadas com uma oração ou um sinal religioso. Por isso o Guarani reza antes de entrar na mata para caçar; reza para pedir a bênção dos grãos, que serão plantados; reza para abençoar a erva mate, usada no chimarrão; reza antes de viajar, reza antes de fazer uma fala, pedindo que Deus o inspire para dizer apenas as coisas boas; reza enfim sempre e em todo lugar.

Para os Guarani não havia canto profano. Todo canto era sagrado, fruto de uma inspiração divina, recebido geralmente através do sonho.[11] Hoje, com a comercialização da cultura, começaram a fazer cantos profanos, como os gravados em CDs para serem comercializados, não sem protestos dos mais velhos. 

O brasileiro deve ter herdado dos indígenas esse hábito de colocar o nome de Deus e de Jesus em muitos locais, ditos "profanos", como na frente ou no pára-choque do caminhão, em muros e out-door. Não é de se admirar que após uma vitória numa partida internacional de futebol, vamos presenciar jogadores brasileiros, de joelhos, de mãos dadas, rezarem o pai-nosso. Ou dizer com muita freqüência "se Deus quiser", embora seja também uma recomendação do Alcorão, trazida por nossos antepassados portugueses. [12]

 

 

3. A NATUREZA COMO LUGAR SAGRADO

Nas sociedades tradicionais a natureza é sempre vista com o olhar religioso. Os quéchuas do Peru  chamam a terra de mãe – pacha mama.

Os povos indígenas da América do Norte também tiveram essa percepção. Muito conhecida e antológica é a carta que o cacique Seatle enviou ao presidente dos Estados Unidos, explicando porque se recusava a vender parte de suas terras:

Cada pedaço dessa terra é sagrado para o meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia nas praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória de meu povo. Somos parte dessa terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, os potros com seu corpo quente e o homem, enfim todos pertencem à mesma família.Essa água brilhante que corre pelos riachos e rios não é apenas água, mas é o sangue de nossos antepassados. O murmúrio das águas é a voz de nossos ancestrais. Os rios são nossos irmãos e saciam nossa sede.[13]

Entre os povos indígena do Brasil há também esse respeito à terra, não só como chão sagrado, que alimenta e dá vida, mas também como morada dos espíritos.

Davi Kopenawa, do povo Yanomami, afirma que

dentro das serras moram os Xapori, Hekura, os espíritos da natureza. E entre as serras têm os caminhos dos Xapori. Ninguém vê, só pajé conhce essa ligações. As serras são lugares sagrados, lugares onde nasceram os pirmeiros Yanomami, onde suas cinzas foram enterradas. Nossos velhos deixaram que as serras sejam respeitadas, não queremos que sejam destruídas. Queremos que estes lugares sejam preservados para não acabar com nossa história e com nossos espíritos.[14]

Por considerarem os rios igualmente morada dos espíritos, evitam urinar em suas águas.

Muitas são as entidades que protegem a mata e os animais, sendo chamados de donos da mata, como é o Curupira, ou donos dos animais. Cada espécie tem uma entidade protetora. Estes são os guardiões, que punem os que faltam de respeito à natureza e os caçadores que matam fêmeas com filhotes ou que caçam simplesmente por prazer.

Essa relação de amizade quase humana com os elementos da natureza encontramos entre o povo Mynky, que vive no oeste do Mato Grosso.

Elizabeth Rondon Amarante, que vive com eles há mais de 20 anos, deixou-nos esse belo relato:

Wajakuxi parece não ter pressa. Acerta uma machadada e pára. Alisa o tronco, contempla lá em cima a copa da árvore e fala sozinho. Sozinho não: conversa com a árvore, e como que pede perdão de a estar matando. Mais dois golpes e torna a acariciar e torna a contemplar e torna a conversar. Sua atitude se explica: a mata é sua morada e cada árvore tornou-se para ele um ser amigo. Derruba-se por necessidade, porque o plantio da roça é subsistência do povo.[15]

E continua a descrever esse povo:

O Mynky é um povo caçador.(...) Caçar é seu trabalho, é sua missão de marido e de pai. Caçar é sempre um prazer, uma festa e muitas vezes um ritual. (...) Ele é dono desse universo, o dono que se serve da natureza, mas não depreda; o dono que mata o animal, mas não esperdiça; o dono que derruba a árvore, mas não devasta a floresta.[16]

E como diz Viveiros de Castro, ao contrário de povos de outros continentes, os povos indígenas americanos apresentam religiões muito próximas da natureza e muito austeras, do ponto de vista material. "São muito mais religiões da palavra, da experiência onírica [do sonho], do transe. Nesse sentido são muito mais místicas e muito menos materialistas".[17]

 

 

4.      CULTURA DA PARTILHA E DO ACOLHIMENTO

A generosidade é a marca da cultura indígena. Para esses povos não há propriedade particular. O que é de um é de todos.

Os europeus, ao chegarem aqui, ficaram surpresos com essa realidade. Hans Staden, alemão que viveu vários meses entre os Tupinambá como prisioneiro, na metade do século 16, assim os descreveu: "Não existe entre eles propriedade particular, nem conhecem dinheiro. Seu tesouro são penas de pássaros. Quem as tem, é rico e quem tem cristais para [enfeitar] os lábios, é dos mais ricos." [18]

Não havia e, ainda não há na maior parte das aldeias, diferença social, isto é, pobres e ricos. A disparidade social existente no mundo ocidental muito chocou os Tupinambá, que estiveram na França, no início do século 17, e que serviu de reflexão filosófica para o pensador francês Montaigne: "Observaram que há entre nós gente bem alimentada, gozando as comodidades da vida, enquanto metades [uma grande parte] de homens emagrecidos, esfaimados, miseráveis mendigam às portas dos outros". [19]

            Para evitar acumulação da propriedade, certos povos criaram rituais que realizam a redistribuição dos bens, acumulados ao logo do tempo, como ocorre ainda hoje entre os Tapirapé do Mato Grosso. É o rito do kaawin-ô, realizado a cada dois ou três anos. Prepara-se uma grande quantidade de cauim, sendo que parte é levada numa cuia para que os adultos que vão participar possam tomar um pouco dele. Ao provar a bebida, a pessoa cospe um pouco no chão, mostrando que aceita participar desse ritual. Nesse momento as pessoas que acompanham o grupo cerimonial têm o direito de pegar o que desejarem da casa daquela pessoa. "Há ao mesmo tempo desprendimento e audácia, que podem causar admiração e medo" comenta Ir. Odila, que vive há anos com eles.[20] Em pouco tempo "cama, colchão, cadeira, fogão a gás, pasta de urucum, arara, galinha, tudo muda de proprietário em apenas uma manhã",[21] num grande movimento redistributivo.

            Entre os Bororo os bens da pessoa desaparecem no momento da morte. Um dos elementos do ritual consiste em queimar os pertences do morto, destruindo assim a idéia de  herança. O que se transmite são os valores morais e espirituais.[22]

Entre outros povos esse processo é feito de forma mais espontânea e em algumas comunidades praticamente não existe a noção de propriedade particular, tudo podendo ser de todos.

Um outro aspecto é o acolhimento. Nessas comunidades a família não é restrita apenas ao pai e à mãe, como em nossa sociedade, mas é formada pela família extensa, que inclui os avós, os tios maternos e paternos. Se faltar um dos membros do casal -- o pai ou a mãe, devido à morte ou separação --, a criança não fica desamparada, pois é acolhida por outra pessoa da família, como o tio ou o avô. Isso explica porque nas comunidades indígenas não existecriança abandonada ou menor carente.[23]

 

 

 

 

5.      UM CULTO FESTIVO

Ao contrário de nossa cultura ocidental, onde a oração geralmente é um ato pessoal e muitas vezes silencioso, nas culturas indígenas o culto é feito de forma coletiva, com cantos e danças. A dança sempre é ritual e religiosa.

Certa vez, na aldeia Tapirapé, um indígena ao ver uma das Irmãs de Foucauld, que vivia entre eles, rezando na capela, sozinha e de cabeça baixa, perguntou mais tarde porque ela estava triste.

Assim os rituais são sempre festivos, e celebrando com abundância de comida e bebida.

Como diz o antropólogo padre Bartomeu Melià, "a festa guarani pode ser considerada como um sacramento, segundo o qual os produtos materiais que serão consumidos são benzidos e rezados no canto-dança religioso".[24] E continua comentando: "A festa guarani não é apenas um cerimonial, mas a metáfora concreta de uma economia de reciprocidade vivida religiosamente".[25]

Por isso pode-se medir a vitalidade de uma aldeia pela freqüência de suas festas. A falta de festa, de celebrações, é sinal de que a comunidade está em crise, ou por falta de rezadores e líderes, por desestruturação ou por falta de comida.

Mesmo quando o ritual é mais triste, como na festa do Kiki -- ritual fúnebre dos Kaingang de Santa Catarina --, termina sempre com uma grande celebração, com muita bebida e dança ao redor das fogueiras.

Esse traço festivo encontra-se no catolicismo popular, onde as comemorações  religiosas são marcadamente festas profanas, sendo que algumas delas entraram para o folclore brasileiro, como as festas juninas. Nelas vamos encontrar fortes traços não só da festa do milho, tradicional nas culturas tupi e guarani, como também na festa kaingang do Kiki, onde há a fogueira e a bebida quente. [26]

Não sem razão José Honório Rodrigues escreveu, ao comentar sobre a cultura brasileira no início do século 19,  que "a religião perdeu, entre nós, o ar sinistro das práticas peninsulares, e ganhou alegria, adaptando-se ao povo, às populações mestiças, amigas do batuque, do foguetório, dos repiques de sinos e alheias às sutilezas do dogma".[27] E isso se deve muito às influências culturais indígenas e africanas.

 

 

6.      POVOS TOLERANTES E SEM PROSELITISMO

Os indígenas são povos de religiões sem dogmas. O importante para eles não é um código escrito e imutável, mas as tradições orais baseadas em mitos e nas falas dos mais velhos. As referências mais importantes são a tradição do grupo étnico e a inspiração divina, que vão orientar a conduta pessoal e comunitária.

Os povos indígenas são tolerante, agregantes e não missionários. Esse traço vamos encontrar, sobretudo, na umbanda -- a mais brasileira das religiões --, justamente por esse caráter sincrético, onde encontramos elementos católicos, africanos, indígenas, sertanejos e espíritas.

Essa característica encontra-se também na religião popular brasileira, não só entre os católicos, que são bastante sincréticos na sua prática religiosa, como também entre os pentecostais. Seguramente essa é uma das explicações para a proliferação de Igrejas pentecostais, marcadas por uma religiosidade festiva e emocional, centrada no milagre, no exorcismo e na garantia da salvação.

A rigidez dogmática de algumas Igrejas protestantes foi compensada no pentecostalismo pela possibilidade de se criar novas Igrejas, surgidas a partir da visão particular do pastor, que encarna bem a figura do pajé indígena. É a concretização de uma espécie de Igreja doméstica, com um culto familiar.[28]

Uma coisa que diferencia a tradição indígena das igrejas evangélicas é o extremado proselitismo dessas últimas, que contrasta com o profundo respeito que o indígena tem  pela opção individual de cada um.

Para os indígenas a noção de salvação -- que para eles é alcançar a Outra Terra, a Terra sem Mal --  está muito mais ligada à pertença da pessoa àquele determinado grupo étnico e ao cumprimento de suas normas, do que à adesão à uma doutrina ou à uma perfeição pessoal, como no caso de várias religiões ocidentais.

 

 

7.      O PAJÉ E O XAMANISMO

O pajé, nome de origem tupi, é o mesmo que xamã, termo usado na antropologia, originário de uma língua siberiana.

Ele é o intermediador entre o mundo material, em que vivemos e o mundo espiritual dos espíritos. Exerce não só a função de sacerdote como também a de médico. Além de ter o segredo das plantas, vai atuar nas causas das doenças, descobrindo as forças espirituais que a desencadearam.

Durante muito tempo o xamã foi visto como uma pessoa ligada a cultos primitivos, "arcaicos" e que seriam abandonados à medida que as pessoas tivessem acesso às culturas "superiores". Tal situação não ocorreu, pois o xamanismo tem se desenvolvido muito nos países de alta tecnologia, onde as pessoas estão buscando nas religiões ligadas à natureza respostas aos problemas da vida moderna.

No xamanismo indígena, o pajé não é uma função hereditária e nem é fruto de uma opção pessoal, embora entre alguns povos da Amazônia, como os Araweté, do Pará, todos são potencialmente pajés.[29]

Mas na maioria dos povos indígenas, a pessoa é escolhida por entidades espirituais, manifestadas, sobretudo, por sonhos ou pela capacidade de previsões futuras. Entre os Pankararu, de Pernambuco, esse sinal é dada por uma semente que aparece à pessoa, dizendo que ela poderá assumir a função de praia, quando a pessoa, vestida com roupa ritual participa de determinadas danças religiosas.

Uma vez escolhida, caso a aceite, essa pessoa passa por um período de preparação com outros pajés, para aprender rituais e o contato com os espíritos.[30]

Basicamente compete ao pajé curar as pessoas, predizer o futuro, expulsar espíritos maus, comunicar-se com os espíritos e compor cantos.

            O transe na pajelança pode ocorrer com a ingestão de substâncias alucinógenas. O tabaco, usado no cachimbo é importante elemento do ritual e serve para a cura e como purificador do ambiente, como ocorre com os Guarani Mbyá.

            Nessa interpenetração entre os vários mundos, muitas vezes o pajé pode assumir a figura de um animal, como relata Orlando Villas Boas no citado livro[31], o que facilita seu contato com o mundo espiritual.

Pelo poder que têm, os pajés são temidos e respeitados. Como escreveu Frei Claude d'Abbeville, no século 17, 

os índios entretanto apreciam os pajés; tratam-nos bem em qualquer lugar que se encontrem. São honrosamente mencionados em seus cantos e bem acolhidos nas danças e cauinagem [festas com cauim] e em todas as cerimônias, pois todos acreditam que as coisas correm bem quando são amigos dos pajés e, ao contrário, muito mal, se não os agradam.[32]

Não sem razão Gunter Kroemer afirma que "os povos indígenas resgataram o aspecto coletivo da magia", que nosso mundo racionalista havia perdido, vindo daí o grande interesse atual pelo xamanismo. [33]

Interferindo no mundo material, sobretudo na natureza, podemos dizer que o xamanismo possui também um papel social e ecológico, influenciando a comunidade na preservação da natureza, como observa o citado autor.[34]

Além dos pajés-auxiliares, em algumas culturas as mulheres poder exercer essa função, tendo persistido essa figura em nossas benzedeiras.

Entre os povos tupis havia também o pajé andarilho, chamado karaíba, espécie de missionário ambulante, que circulava pelas várias aldeias, exortando e fazendo curas.[35]

Esse traço do pajé ambulante permaneceu, sobretudo no Nordeste, na figura dos beatos, que através de uma vida penitente e pobre, que vão de povoado em povoado reconstruindo oratórios, recitando o terço e ladainhas e até aglutinando pessoas, em volta de si, num projeto de vida comunitária, como foi o caso do Beato Lourenço, do Caldeirão, no Ceará, na época do pe. Cícero,[36] ou os líderes político-comunitários, como Antônio Conselheiro, na Bahia, ou o beato João Maria, em Santa Catarina, no começo do século passado.[37]

 

 

8.      AS ALMAS E A VIDA DEPOIS DA MORTE

            O mundo espiritual é muito presente entre os povos indígenas, pois é marcado pela busca de uma terra boa, um mundo onde não haverá sofrimento e nem morte.

            Os povos tupis, em geral, e os Guarani, em particular, acreditam em três almas: a espiritual, responsável pelas boas inclinações; a animal, da qual derivam o temperamento e as más inclinações; e a sombra.[38]

Quando a pessoa morre, a alma espiritual inicia a caminhada para a Terra sem Mal, enquanto a alma material fica vagando perto da aldeia ou no cemitério, onde foi enterrada, até que o corpo se decomponha. Por isso muitos Guarani evitam passar por esses lugares.

A morte violenta ou acidental é uma situação difícil para muitos desses povos, pois é uma situação em que não houve tempo para o falecido se preparar. Por isso sua alma pode interferir negativamente junto à comunidade. Isso também se vê na cultura brasileira, onde o local, onde alguém morreu de forma violenta ou num acidente, é marcado com uma cruz.

O culto das almas, que têm tanto espaço na religião popular, encontra aí uma de suas raízes.

O sonho é o momento em que a alma sai do corpo, indo para o Além, podendo entrar em contato com outras pessoas e outros lugares. A doença é a saída temporária da alma, sendo que a morte é a saída definitiva.

A busca do paraíso, chamado de Terra de Maíra ou Terra sem Mal, foi sempre muito forte entre os povos Tupi, levando-os a constantes migrações, sobretudo em épocas de crise social.

Alguns o situam a Oeste, depois das altas montanhas (os Andes), o que levou um grande grupo Tupi a migrar para o altiplano peruano, tendo alguns sobreviventes dessa longa peregrinação chegado à cidade de Quito, no Equador, no final do século 16. [39]

Mais comumente é situado a Leste, depois das grandes águas, isto é, depois do oceano. Por isso os europeus, ao chegarem aqui, foram considerados pessoas divinas, vindas desse mundo, recebendo nomes religiosos, como foi o caso dos franceses, chamados de Maíra, e dos portugueses, de Karaíba.

Alguns indígenas aceitavam de bom grado embarcar para a Europa, acreditando estar indo para essa terra, como se lè em relatos do século 16.[40] A presença Tupi em todo o litoral sudeste e nordeste, a partir do século 10, e a vinda dos Guarani em épocas recentes, mostram que essa localização era muito presente.

Era uma terra de felicidades e de fartura e onde não havia sofrimento ou doença. "O mantimento há de crescer por si, sem serem plantados, relata Anchieta, e as caças do mato se lhe hão de vir a meter em casa." [41] E conclui o missionário: "As velhas se hão de tornar moças e para isso fazem lavatórios de algumas ervas com que [se] lavam."

Para eles a vida presente era imperfeita e, de certa forma, má. Por isso todo o esforço do ser humano devia ser em alcançar a outra terra, a morada de Maíra.

Os pajés seriam os únicos a entrar em vida. Segundo os Tupinambá, para lá vão apenas as almas dos valentes e das mulheres que demonstrassem bravura na guerra ou que tivessem ajudado seus maridos nos rituais de morte. Os medrosos, "que não lutaram para defender sua terra" e os efeminados não poderiam entrar. [42]

Seguramente essa idéia de paraíso esteja na raiz de muitos movimentos messiânicos nos Brasil, como o de Antônio Conselheiro, na Bahia, o do Contestado, em Santa Catarina[43] e no movimento pouco conhecido, ocorrido em Catulé, no nordeste de Minas Gerais.[44]

A idéia de uma terra boa no Além domina também a religiosidade popular brasileira, haja vista a quantidade de igrejas evangélicas que prometem a salvação imediata para seus adeptos, chegando muitas anunciar a volta próxima de Cristo, numa visão milenarislista. 

 

CONCLUSÃO

            Podemos concluir esse breve estudo mostrando que esses ideais religiosos indígenas poderão inspirar os sonhos de um mundo mais humano e mais cristão, dando-nos esperança e despertando utopias. E com Dom Pedro Casaldáliga, dizemos:

Vós sois nossa causa perdida salvadora!

Vós sois a necessária e urgente Utopia!

A nova inevitável Esperança de todo um continente

Rogai por nossas vidas sem arco e sem estrelas! [45]

Texto extraido da Revista Uniclar, São Paulo: Publicação da Faculdade Claretiano, Ano IX - Numero 1, 2007.

Revista comemorativa dos 10 anos de Ciências da Religião


[1] Doutorando em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo-PUC. Professor de Fenômeno Relgioso no Instituto Teológico de Santo André (SP) e coordenador da Pastoral Indigenista da Arquidiocese de São Paulo.

benedito.prezia@yahoo.com.br

 

[2] In: PREZIA, Benedito. Caminhando na luta e na esperança. 30 anos do Cimi e 60 anos da pastoral indigenista São Paulo: Loyola, 234.

[3] Mito recolhido por André Thévet em 1565. In: MÉTRAUX. A. A religião dos Tupinambás, 1979, p. 197-201Apud: PREZIA, B. Indígenas em São Paulo, ontem e hoje, 2004, p. 15-16.

[4] In: CADOGAN, L. La literatura de los Guaranies. México: E.d. Joaquín Mortiz, 1984, p. 51-53.

[5] Id., p. 57-63

[6] SCHADEN, E. Aspectos fundamentais da cultura Guarani. São Paulo: E.P.U./Edusp, 1974, p. 161-165.

[7] MAYBURY-LEWIS, D..A sociedade Xavante. 1984, p. 349-351.

[8] Ver VIVEIROS DE CASTRO, E. O papel da religião no sistema social dos povos indígenas, 1999, p. 22.

[9] SCHADEN,  id.,  p. 124-131.

[10] Id., ib.

[11] NIMUENDAJU, C. As lendas da criação e destruição do mundo., 1997,  p. 77. 

[12] "Nunca digas de coisa alguma 'farei isso amanhã' sem acrescentar: Se Deus quiser"  Alcorão, cap. 93. In: MUHAMAD, A .Mohammad, o mensageiro de Deus, Centro Divulg. Islã,  1989, p. 73.

[13] In: Carta da terra. ONU, s/d.

[14] In: HECK, E. & PREZIA, B. Povos Indígenas: terra é vida. São Paulo: Atual, 2005, p. 44.

[15] As bem-aventureanças do povo Myky, 1983, p. 34

[16] Id.,  p.14-15.

[17] O papel da religião..., p. 24.

[18] Duas viagens ao Brasil, 1988, p. 172.

[19] Ensaios, 1972,  p. 109.

[20] Apud Ir. Clara. In: IRMÃZINHAS DE JESUS. O renascer do povo Tapirapé, 2002, p. 252.

[21] Id., ib.

[22] Ver BORDIGNON, M.. A vida renovada na morte. Porantim, Brasília, supl. cultural, 3, abr. 1988, p. 4.

[23] Ver o texto de Paulo SUESS, O menor bem amparado: a criança indígena. Vida Pastoral, São Paulo, XXVIII, v. 133,  mar/abr., 1987, p. 2-7

[24] A experiência religiosa guarani. In: MARZAL e outros O rosto índio de Deus, 1989, p. 323.

[25] Id. P. 321.

[26] Ver PREZIA, B. Festa Junina: a mais indígena das festas populares. Porantim,  XXVI, 276,  jun.-jul., 2005, p. 11.

[27] Independência: revolução e contra-revolução, 1975, v. 2,  p. 149.

[28] Ver VIVEIROS DE CASTRO,  id.,  p. 16.

[29] VIVEIROS DE CASTRO, id., p. 15.

[30] Ver de Orlando Villas Boas A arte dos pajés, São Paulo: Globo,  2000,  sobretudo as pág. 62 a 65.

[31] Ver o episódio O veadinho da serra do Cachimbo, pág. 91.

[32] História da missão dos padres capuchinhos na Ilha do Maranhão, 1975,  p. 254.

[33] A espiritualidade e os povos indígenas. Por uma terra sem males, 2002,  p. 15.

[34] Id., ib.

[35] MÉTRAUX, id., p. 66.

[36] Ver PREZIA, B. Caldeirão: os sem-terra do Juazeiro, Porantim, Brasília, ago, 2000,  p. 10.

[37] GALLO, Ivone Cecília. O contestado, o sonho do milênio igualitário. Campinas, Ed. Unicamp, 1999.

[38] MELIÀ, id., p. 310-311.

[39] GANDAVO, P. História da Província de Santa Cruz, 1980,  p. 144.

[40] Ver A Nova Gazeta da Terra do Brasil, 1514. In: RIBEIRO, D. & MOREIRA NETO, C. A fundação do Brasil, 1992, p. 114.

[41] ANCHIETA. Breve Informação do Brasil. In: Textos históricos, 1989,  p. 61.

[42] Ver METRAUX, A religião dos Tupinambás, 1979, p. 112.

[43] Ver GALLO, Ivone Cecília, O contestado, o sonho do milênio igualitário, 1999.

[44] Ver o livro de QUEIROZ, Renato da Silva, A caminho do paraíso, o surto messiânico-milenarista do Catulé, 1995.

[45] Ameríndia, morte e vida. Petrópolis: Vozes, 2000,  p. 109.

 

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