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sábado, 11 de julho de 2009

A Arte de Aprender Dormindo


Estudante A:
Há algum tempo, venho estudando com regularidade a teosofia clássica de H. P. Blavatsky. Mais recentemente, começaram a surgir idéias inspiradoras em minha mente no momento em que estou acordando. Outras vezes, isso acontece quando estou para adormecer. Compreensões, percepções, e até frases inteiras vêm à minha mente. Algumas delas são respostas para perguntas. Outras são maneiras de entender e de explicar questões relacionadas à vida, ao ser. São idéias sobre situações abstratas. Em geral, porém, não consigo fixá-las na memória. Você tem idéia sobre como, ou por que motivo, ocorre isso?
Estudante B:
O estudo calmo e profundo de teosofia, feito com regularidade, não muda só a qualidade de vida em estado de vigília. Ele transforma também a qualidade e a substância do sono e dos sonhos do estudante.
Cedo ou tarde, o aluno começará a ter acesso a ensinamentos “essenciais”, em dimensões sutis, enquanto seu corpo está adormecido. A expansão de consciência durante o estudo em estado de vigília permite alcançar novos níveis de libertação enquanto o corpo está adormecido.
Na verdade, o aprendizado do eu superior inclui planos da realidade que só se pode vivenciar quando o “eu” está fora do corpo. O resultado deste aprendizado sutil “desce” como um orvalho sobre o cérebro físico, quando este desperta; mas o faz com tamanha suavidade que não é fácil registrá-lo em palavras, nem lembrar dele com precisão. É verdade que, depois de vários anos de estudo de teosofia, esta dificuldade tende a diminuir pouco a pouco. Porém, mesmo quando o cérebro físico capta alguma coisa do processo, ele só consegue trazer uma “fatia” estreita e limitada do que realmente ocorreu em níveis mais sutis. Felizmente, nada se perde do ensinamento ou das vivências “fora do corpo”. O que se aprendeu no plano sutil vai inspirando “por osmose” a vida do indivíduo em vigília, à medida que ele avança no estudo e na reflexão da filosofia teosófica. A vida em vigília passa a ter uma relação renovada com a vida durante o sono e o sonho. A aprendizagem espiritual abrange então as 24 horas do dia. Mais cedo ou mais tarde, todo estudante dedicado desperta para este processo.
Estudante A:
O aprendizado ocorre de modo individual e isolado, ou o aprendiz pode receber ajuda?
Estudante B:
Nenhum estudante sério de teosofia está interiormente isolado ou esquecido. Ao mesmo tempo, a ajuda sutil a receber depende do seu discernimento, do seu esforço, e do seu mérito. Ele deve ajudar para ser ajudado. E não será ajudado “por alguém”, mas sim pela Vida mesma, pela Lei, ainda que seja através de uma ou mais pessoas.
Em “Cartas dos Mahatmas”, vemos uma passagem em que um Raja-Iogue dos Himalaias menciona alguns dos meios pelos quais os Mestres se comunicam com seus discípulos leigos e com pessoas de boa vontade .em qualquer lugar do mundo. Entre eles, está a técnica de colocar idéias ou “sementes de idéias” junto à aura do aprendiz, de modo que ele as perceba ao despertar.[1] Mas o mais frequente, quando temos idéias inspiradoras ao despertar, é que elas sejam impressões vindas de processos meditativos ocorridos durante o sono, e que se imprimam por um momento, de modo ainda que tênue, sobre o cérebro físico.
No entanto, os Mestres também podem usar este sistema de comunicação. Existem “discípulos leigos inconscientes”. Mesmo sem ter uma clara consciência cerebral deste fato, estes aprendizes “inconscientes” participam da corrente “astral” de consciência coletiva altruísta, anônima e planetária dos Mestres e seus Discípulos. Eles tomam parte desta corrente sutil de “boa vontade planetária” enquanto seus corpos estão adormecidos. Eles fazem isso com plena autonomia e livre arbítrio, mas, por diversos motivos, que dependem das circunstâncias e do seu carma individual, ao acordar não lembram do processo em seu cérebro físico.
Assim, a consciência cerebral dos vários tipos de vivência espiritual durante o sono ocorre apenas em uma pequena parcela dos casos. Há um grande número de razões para que estes fatos sutis raramente sejam captados pelos mecanismos mais conhecidos do cérebro físico.
Estudante A:
Quais são as razões?
Estudante B:
Um dos motivos é que o nível comum do cérebro só consegue registrar informações de modo visual ou verbal. Ocorre que tanto o que é visual (imagem) como o que é verbal (som) dependem dos cinco sentidos, mesmo que a imagem e o som sejam subjetivos. Estes são processos que têm uma relação estreita com o hemisfério cerebral esquerdo; porém, os ensinamentos e as vivências realmente espirituais estão acima de todo som, toda palavra e toda imagem, e ocorrem sobretudo no hemisfério cerebral direito.
Quando o aprendiz consegue colocar em palavras algo da inspiração recebida durante o sono-sonho, ele é consciente de que, ao registrar no papel, ele deixa de fora a maior parte do que foi essencialmente captado ou “percebido” por ele ao acordar. A diferença entre o relato ou memória e a percepção em si mesma é como a diferença entre olhar diretamente o nascer do sol, pela manhã cedo, ou ver uma descrição escrita e detalhada do nascer do sol, no jornal do dia seguinte. A descrição e a memória podem ser úteis, sem dúvida: mas serão sempre um pálido reflexo do fato que tentam registrar. Por isso, o mais importante, para alguns, é capturar a “sensação espiritual” e não tanto transformar aquela percepção complexa em palavras precisas. A “sensação” sintetiza tudo. Para outros, porém, o mais eficiente é dormir com papel e caneta ao alcance da mão, na mesa de cabeceira, e tomar nota das idéias que surgem quando sua consciência está na fronteira entre o sono e a vigília. Cada um deve experimentar e descobrir o que é mais eficiente em seu caso. Em algumas situações, as imagens e “lições” podem “acordar” o estudante no meio da noite, como se algo nele soubesse que elas devem ser anotadas. Vários tipos de idéias, decisões e percepções podem surgir deste modo. O motivo é simples: o estudo calmo e regular da teosofia clássica amplia no aprendiz o contato entre os estados de consciência do sono, do sonho e da vigília. As “paredes divisórias” entre a vigília e o sonho se tornam mais finas. Por isso Damodar Mavalankar e William Judge escreveram sobre processos de meditação integral, que ocorrem ao longo das 24 horas do dia. São os mais eficazes.
NOTA:
[1] “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, Ed. Teosófica, Brasília, volume I, Carta 5, página 60. A expressão usada pelo Mahatma é “impressões ao despertar”.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A Religião Aquariana

Um Sonho Antigo Pode Florescer no Século 21

Como será a religiosidade do futuro? E qual será o papel do Brasil – tradicionalmente chamado de “o país do futuro” – no processo do seu surgimento?
Não há uma resposta pronta para a segunda pergunta, mas a questão é oportuna. Ela deve ser investigada e debatida pelos pioneiros interessados no tema.
Em relação à primeira pergunta, a teosofia clássica ensina que a religião do futuro será planetária. Ela não terá dogmas ou rituais. Ela será desburocratizada. Estará aberta à livre expressão individual e isenta de sacerdotes assalariados. A religião do futuro será uma religião-filosofia. Sem donos ou papas, ela respeitará a diversidade cultural dos povos e será uma religião da natureza. Levando em conta que a vida está dinamicamente presente em tudo o que existe, ela ensinará a unidade e a harmonia entre o espírito e a matéria. Ela também ensinará que a consciência dirige a matéria e não o contrário. A base desta religião será a compreensão prática do fato da fraternidade universal.
Nas obras de Helena Blavatsky e nas Cartas dos Mahatmas encontramos uma formulação moderna e abrangente da religião do futuro. Pouco antes de Blavatsky, Eliphas Levi ajudou a preparar o seu enunciado. Porém, no plano do espírito, as bases da religião do futuro vêm sendo construídas há milênios. A ideia da cidadania planetária era proposta por Pitágoras e Demócrito na Grécia antiga, e também por Lúcio Sêneca no império romano. Demócrito afirmava que a pátria da boa alma é todo o universo.[1] O imperador romano Marco Aurélio agia conforme a religião do futuro. E muito antes de Marco Aurélio, o imperador Ashoka fez o mesmo na Índia.
À medida que passava o tempo, o sonho se tornava mais concreto. O iluminismo do final do século 18 foi um ponto forte do processo. Em 1795, Immanuel Kant propôs a religião do futuro ao escrever o seu tratado sobre a paz perpétua. Este foi o primeiro rascunho e a concepção inicial do que é hoje a Organização das Nações Unidas.[2] Karl Dietrich Krause, o filósofo kantiano alemão, aprofundou a proposta da fraternidade universal. Inúmeros pensadores e ativistas trabalharam nesta linha ao longo do tempo; mas, para florescer, a religião do futuro ainda terá que derrubar o muro separatista dos dogmas sustentados pelas igrejas e seitas das diversas religiões. Será preciso fazer isso de modo fraterno. As chaves para o cumprimento desta tarefa foram estabelecidas no século 18. O livro 'História da Civilização Ocidental', de Edward McNall Burns [3], descreve da seguinte maneira o Deísmo, uma das principais correntes filosóficas do iluminismo:

“A mais notável filosofia religiosa [do Iluminismo] foi o deísmo. Parece que quem deu origem a esta filosofia foi um inglês de nome Lord Herbert of Cherbury (1583-1648). No século XVIII, as doutrinas deístas foram propagadas por homens como Voltaire, Diderot e Rousseau, na França; Alexander Pope, Lord Bolingbroke e Lord Shaftesbury , na Inglaterra; e Thomas Paine, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson, na América. Não satisfeitos em condenar os elementos irracionais da religião, os deístas chegaram à denúncia de qualquer forma de fé organizada. O cristianismo não foi mais poupado que as outras religiões. As religiões instituídas eram estigmatizadas como instrumentos de exploração, que velhacos espertos tinham inventado para possibilitar-lhes a manipulação das massas ignorantes. Voltaire dizia: ‘O primeiro teólogo foi o primeiro espertalhão que encontrou o primeiro tolo’.”[4]

Voltaire é conhecido por sua maneira irreverente de escrever. Os deístas acreditavam em “Deus”. Porém o seu conceito de Deus correspondia ao que a teosofia universal chama de Lei UniversalouPrincípio Supremo. Trata-se de algo impessoal, destituído de atributos, e sobre o qual é inútil especular verbalmente ou com o raciocínio convencional do hemisfério cerebral esquerdo. Este mesmo princípio abstrato é chamado de Tao no primeiro verso do clássico chinês “Tao Te King”.
Edward Burns prossegue:
“Os objetivos dos deístas não eram porém todos destrutivos. Não se interessavam somente em destruir o cristianismo, mas em construir uma religião mais simples e mais natural para substituí-la. Os dogmas fundamentais dessa nova religião eram mais ou menos os que se seguem: 1) Há um Deus que criou o universo e ordenou as leis naturais que o controlam; 2) Deus não intervém nos negócios do homem, neste mundo: ele não é um Deus caprichoso, como o deus dos cristãos e judeus, que dá ‘uma oportunidade para o bem e outra para o mal’, segundo seus caprichos momentâneos; 3) Oração, sacramento e ritual são meros absurdos inúteis; Deus não pode ser enganado ou subornado para violar as leis naturais em benefício dos indivíduos particulares; o homem é dotado de livre arbítrio para escolher entre o bem e o mal; não há predestinação para alguns serem salvos e outros serem condenados, mas as recompensas e as punições (….) são determinadas unicamente pela conduta terrena do indivíduo.”

O deísmo defendido por Thomas Paine, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Denis Diderot e Jean-Jacques Rousseau propunha claramente uma religião universal. Edward Burns escreveu:

“.... O deísmo era bastante diferente do supernaturalismo racionalista. Enquanto os expoentes deste último ainda adotavam a crença na revelação, em milagres e na racionalidade do cristianismo, os deístas desfizeram-se de tudo que não concordava com suas ideias de religião natural . Afirmavam que todo mortal inteligente que seguisse a orientação da razão chegaria por fim a acreditar num Deus criador, em futuras recompensas e punições e em leis naturais e morais. Desse modo, o deísmo era tido como uma religião universal aplicável a todas as condições e climas e passível de ser descoberta tanto pelo sábio chinês como pelo nativo astuto da floresta virgem. O cristianismo era desprezado como não sendo melhor que o islamismo e, mesmo, como sendo um pouco pior, dada a malícia do seu clero e sua maior carga de dogmas místicos. Por outro lado, muitos dos deístas dedicavam profunda admiração ao nobre caráter de Jesus e alguns até tentaram provar que também ele era um deísta. Voltaire pensava ser um insulto chamar Jesus de cristão.”
A proposta de uma religião da ética universal foi enriquecida ao longo dos séculos 19 e 20. Albert Einstein, Teillard de Chardin, Mahatma Gandhi e inúmeros cidadãos de boa vontade ajudaram a prepará-la. Quanto tempo falta para que seja concluída a tarefa da sua construção? Não sabemos exatamente, mas a realização deste velho projeto parece estar mais próxima do que nunca. É possível que o sonho não tenha que esperar até o século 22 para ser realizado.
(Um Estudante de Teosofia)
NOTAS:
[1] “Los Filósofos Presocráticos”, Leucipo y Demócrito, Planeta deAgostini, Editorial Gredós, España, 1998, 308 pp., ver p. 247.
[2] “À Paz Perpétua”, Immanuel Kant, L & PM Pocket, Porto Alegre, 2008, 85 pp.
[3] “História da Civilização Ocidental”, de Edward McNall Burns, Editora Globo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo,1948, 958 pp., ver pp. 552-553
[4] “Dicionário Filosófico”, Voltaire, verbete “Religião”. (Nota de Edward McNall Burns)

Um Vasto Campo de Estudos


A Literatura da Teosofia Original
Pergunta:
Em seus estudos, o e-grupo SerAtento dá um destaque especial às “Cartas dos Mahatmas”, a “Ísis Sem Véu” e “A Doutrina Secreta”, de H.P.B. Qual é o motivo disso?
Comentário:
A bibliografia e o campo de interesse do estudante de teosofia devem ser variados. O teosofista estuda a sabedoria universal, cujo horizonte é tão vasto quanto os limites do saber humano. Por outro lado, podemos dizer que as três obras citadas formam uma grande Tríade luminosa – um triângulo de fontes de inspiração. Se a elas somarmos “A Voz do Silêncio” (de HPB) e “Luz no Caminho” (de Mabel Collins) – dois tratados místicos – teremos um pentagrama. Com “A Chave para a Teosofia”, chegamos a um hexagrama, a estrela de seis pontas – ou dois triângulos entrelaçados. E isso não é tudo. A estrela de seis pontas tem no seu centro um sétimo elemento, que é oculto, mas decisivo. O centro desta nossa “estrela bibliográfica” pode ser dinâmico. Dependendo do temperamento de cada estudante, o Centro pode ser ocupado por qualquer uma das obras citadas ou pelas coleções de textos curtos de H.P. Blavatsky. Em torno desta estrela setenária essencial há numerosas obras de valor, que se somam a ela e ampliam sua luz sem fazer com que ela desapareça. É o caso de “O Oceano da Teosofia”, de William Judge. É o caso do “Bhagavad Gita”, do “Dhammapada”, do “Tao Te King”, dos Upanixades, do “Dnyaneshwari”, dos “Aforismos de Ioga” e de tantas outras grandes obras das diversas religiões e filosofias, orientais e ocidentais. Em última instância, todo conhecimento humano que está ligado à ética faz parte do Oceano da teosofia.
Como escola de pensamento, a teosofia original propõe uma visão abrangente e evolutiva do ser humano e do universo. A teosofia autêntica decodifica para o estudante cada corrente de pensamento ou religião, cada cultura e cada dogma. Ela faz o trabalho de chave multidisciplinar universal. Isto é algo que apenas ela consegue fazer. Os imitadores da teosofia propõem caminhos mais fáceis, mas que não levam a lugar algum.
Se o estudante tomar em suas mãos as edições originais de “A Doutrina Secreta” e “Ísis Sem Véu”, ele terá cerca de 3.000 páginas de uma sabedoria que ensina a decodificar as visões setoriais e parciais da vida e do universo. O estudo destas páginas liberta a alma para a compreensão do todo. As Cartas dos Mestres dão a chave do discipulado ou aprendizado individual. Há também os 15 volumes dos 'Collected Writings' de H.P.B., e as coleções das duas revistas mensais que H.P.B. editou na Índia e em Londres, as quais incluem numerosos artigos que não são de H.P.B. e possuem enorme valor. Também há alguns livros de peso de outros autores, entre eles Damodar Mavalankar e Subba Row.
Este conjunto complexo forma um corpo de textos filosóficos sem igual na história humana.
O que chegaria mais perto da teosofia do século 19 são os diálogos de Platão, no Ocidente. Esta é outra obra relativamente ampla e abrangente. Mas Platão não decodifica sequer 5% do que HPB decodifica da sabedoria universal. Ao contrário, é H.P.B. quem explica não só a obra de Platão, mas também os outros campos do saber filosófico, religioso e cientifico.
No Oriente, o que chegaria mais perto do ensinamento de H.P.B., em termos de obra de grande porte e abrangente, seriam os Vedas hinduístas, por um lado, e o Tripitaka, o cânone budista, por outro. Mas tanto os Vedas como o Tripitaka são de um simbolismo obscuro – salvo exceções. Para serem compreendidos, dependem obviamente de um ponto de vista ou chave que é dada, não por acaso, por “A Doutrina Secreta” e “Ísis Sem Véu”.
Lao-tzu e Confúcio são outras fontes importantes. Mas eles não têm a abrangência e a profundidade dos Vedas, de Platão, do Tripitaka (Cânones Budistas) ou de H.P.B.
Entre as grandes escrituras, o Talmude judaico é vasto em tamanho e importância. Ele é tão grande quanto uma enciclopédia de grande porte e é pouco conhecido fora dos círculos rabínicos. Possui grande valor, é respeitável, tem uma ótima ética filosófica, mas não pode ser comparado ao conhecimento oriental.
As chaves do conhecimento humano estão no Oriente. A obra de HPB é essencialmente oriental. Como a própria alma de H.P.B, ela se situa em última instância naquele Oceano de Sabedoria que é a origem e o destino de todas as tradições de conhecimento antigas e modernas.
Naturalmente, o movimento teosófico não é uma igreja. O que se afirma nos parágrafos anteriores não pode ser visto como objeto de crença ou de fé. O significado da obra de H.P.B. na história da literatura humana é algo que cada um deve verificar por si mesmo. O pesquisador isento verá que não há nada nem remotamente comparável à literatura teosófica original, gerada entre 1875 e 1891.
É importante levar em conta que, ao lado da literatura de HPB, preservou-se um pequeno núcleo dinâmico de estudantes que vivem o 'clima' da compreensão do ensinamento, e que hoje está organizado em cerca de 15 países. Esta comunidade informal de estudantes da teosofia autêntica constitui uma espécie de ashram ou espaço comum de aprendizes – ; um ashram que possui a sua essência nos planos superiores de consciência.
Felizmente, já temos em língua portuguesa um trabalho ligado a este processo aberto de investigação, estudo e compreensão da teosofia original. O trabalho leva em conta que em filosofia esotérica não há mérito em dizer “amém” ao que se ouve ou lê. Vale a pena ver por si mesmo, e dialogar e examinar tudo, contextualizando sempre cada uma das percepções. O modo de trabalhar tem como princípio básico a autonomia solidária. Cada axioma da filosofia esotérica deve ser testado com independência pelo estudante.
Crises Geológicas Provocam Renovação
A Dinâmica Planetária Impede o Avanço Para o Pior
Assim como o indivíduo humano, um planeta possui sete níveis de consciência. O mesmo ocorre com cada civilização. Espírito e matéria não estão separados: a evolução geológica da Terra avança paralelamente à evolução psicológica dos homens que respiram sua atmosfera, bebem sua água e se alimentam dos frutos do seu solo. Quando a base ética e espiritual de uma civilização se esgota, este é um indício seguro de que a sua base ecológica e a sua base geológica estão igualmente exauridas. A recíproca é verdadeira: também se pode perceber o estado da ética e da espiritualidade de uma civilização pelo modo como ela convive com a natureza. É preciso saber se ela preserva a harmonia, ou se ela prepara a sua destruição ao romper o equilíbrio ambiental.
Abordando as grandes mudanças cíclicas e geológicas da Terra, um raja-iogue escreveu a um cidadão inglês do século 19:
“Quando a sua raça − a quinta − houver alcançado o seu zênite de intelectualidade física, e desenvolvido a civilização mais elevada (lembre da diferença que nós estabelecemos entre civilizações físicas e espirituais), incapaz de elevar-se em mais nada, seu avanço em direção ao mal absoluto será interrompido (como seus antecessores, os lemurianos e atlantes foram interrompidos em sua marcha no mesmo rumo) por uma destas mudanças cataclísmicas; sua grande civilização será destruída; e todas as sub-raças desta raça serão vistas decaindo ao longo dos seus respectivos ciclos, depois de um curto período de glória e aprendizado.” [1]
O século 21 não verá um evento de tamanha magnitude como o mencionado neste trecho das Cartas. Mas o que ocorre em grande escala também ocorre em pequena escala. Pequenos ciclos reproduzem grandes ciclos. A crise geológica em que nossa civilização está ingressando não se relaciona com o ciclo do conjunto da quinta raça, mas apenas com o ciclo mais breve da quinta sub-raça da quinta raça. Mesmo assim, ele apresenta em menor escala as mesmas características do grande ciclo, e é possível que seja suficientemente radical para mudar por completo o rumo da civilização humana, afastando-a do materialismo eticamente cego e colocando-a outra vez no caminho da ética e da sabedoria. Não há, porém, data marcada. As mudanças geológicas ocorrem gradualmente, impulsadas por uma longa série de eventos.
NOTA:
[1] “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, Ed. Teosófica, volume II, Carta 93B, p. 120.
Dois Instrumentos Inseparáveis:
Senso Crítico e Pensamento Positivo
Estudante A:
Para alguns, o caminho espiritual parece ser feito exclusivamente de pensamentos positivos. Mas, neste caso, como será possível identificar e corrigir os erros e defeitos?
Estudante B:
O estudante que preserva o seu bom senso não perde o sentido crítico. Uma visão exotérica e emocional do caminho prefere acreditar na proposta ingênua de fazer de conta que o mundo é uma maravilha. Mas para cada ingênuo há um espertalhão, quando não é o espertalhão que se faz passar por ingênuo. O aprendiz que aprende a agir com discernimento desafia as rotinas mentais. Ele mostra as falhas dos sistemas eclesiásticos e da ciência convencional, e propõe as práticas corretas. Ele não teme apontar os erros que devem ser corrigidos, embora saiba que será testado por isso. Ele sabe que não há aprendizado sem testes.
Estudante A:
Mas qual é a diferença entre o espírito crítico e o pensamento negativo? Quando é que termina um e começa o outro?
Estudante B:
Uma primeira característica fundamental do bom espírito crítico está na intenção. O aprendiz fala dos erros com o propósito interior de que eles sejam corrigidos. A sua intenção não é destruir. As suas críticas nunca se dirigem a pessoas, mas a fatos e ações. E a crítica ao que é externo anda junto com uma auto-crítica honesta. Uma segunda característica é que o espírito crítico saudável dá o apoio e o realismo necessários ao pensamento positivo, para que ele possa ter eficiência prática. Quem possui bom senso sabe que o pensamento positivo é o fundamental e o sentido crítico é o secundário. Umaterceira característica é que o espírito crítico, quando unido ao pensamento positivo, leva o estudante à ação construtiva de longo prazo, com discernimento e confiança no futuro. A confiança no futuro resulta do contato ampliado com a alma imortal. Ela permite olhar os erros de frente sem cair no pessimismo.
Do mesmo modo que um bom médico não faz de conta que o paciente está bem, se o paciente está doente – mas anuncia com honestidade que será necessário este ou aquele tratamento doloroso para superar a doença –, também a teosofia original não finge que tudo está bem com nossa civilização. Ela mostra honestamente o caminho para corrigir o rumo.
Não há melhor carma do que o pensamento voltado ativamente para o bem da humanidade. Quem deseja o bem da humanidade e é estudante da sabedoria universal faz três coisas básicas:
1) Ele formula ou ajuda a formular um diagnóstico adequado.
2) Ele chega a um prognóstico (uma proposta saudável de futuro).
3) Ele trabalha pela superação das causas do sofrimento; e também pela construção do que é novo.
O pensamento correto não está na superfície da mente ou na simples fala. Sabemos que as palavras amáveis ocultam frequentemente segundas e terceiras intenções. Se palavras agradáveis fossem suficientes, não haveria qualquer diferença entre o sábio e o mentiroso. Em filosofia esotérica, pensamento correto é aquele que surge de uma Intenção interior que é nobre e elevada.
Assim, o pensamento severo e a fala crítica podem ser corretos. O pensamento agradável e a fala mansa podem ser causadores de grande mau carma e sofrimento. É a motivação do indivíduo perante a vida, a sua meta central e suas metas auxiliares – assim como os seus hábitos de pensamento, sentimento e ação – que direcionam e dão valor real ao que ele pensa e diz.
Vale sempre o contexto: quando o Jesus do Novo Testamento denuncia frontalmente os “sepulcros caiados” do clero profissional, ou quando ele expulsa os comerciantes do templo, o seu discurso e seu pensamento têm efeitos positivos, porque a Intenção é nobre.
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O Teosofista - Notas e Informações Sobre Teosofia e o Movimento Esotérico

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Retomando a Tarefa dos Iluministas do Século 18

Os problemas de convivência humana que há hoje em lugares como Israel, Palestina, Iraque e Afeganistão – assim como a decadência ética e ecológica da civilização cristã como um todo – indicam claramente pelo menos uma coisa: o filósofo francês Paul Henri Thiry, o barão d’Holbach (1723-1789), tem algo de grande importância a dizer para os habitantes do século 21.

D’Holbach foi um dos principais enciclopedistas franceses do século 18. Em sua casa, em Paris, se reuniam alguns dos maiores filósofos do iluminismo. Vale a pena examinar o seu pensamento. D'Holbach questionava a existência de Deus, e neste sentido ele era um ateu. Porém devemos lembrar que as religiões filosóficas, como o taoísmo e o budismo, tampouco trabalham com o conceito de Deus. D’Holbach era considerado materialista, porque afirmava que existe uma identidade fundamental entre matéria e espírito. Mas nisso ele também não estava só. A identidade fundamental entre espírito e matéria é um dos princípios e axiomas centrais da filosofia esotérica original.

Em que contexto viveu e escreveu d’Holbach? Como era a segunda metade do século 18? O clero cristão ignorava a filosofia não-violenta do Jesus do Novo Testamento para justificar e abençoar em todo o mundo a escravidão dos negros, o massacre das tribos indígenas, a miséria dos trabalhadores, a violência contra os judeus, os abusos do colonialismo e as guerras nacionalistas. Na França, o povo passava fome. O clero católico e a nobreza negavam todo direito humano. A sangrenta revolução de 1789 não surgiu por acaso.

É preciso admitir que o cristianismo protestante da Inglaterra nunca caiu ao nível do catolicismo jesuítico. No país de Shakespeare, assim como em suas colônias e ex-colônias, sempre houve muito mais ética e tolerância que nos países que sofriam a influência direta do Vaticano. Isso explica a vantagem histórica dos Estados Unidos em relação a outros países das Américas. Naquela ex-colônia, a influência católica era pequena. Isso possibilitou uma admirável liberdade e diversidade religiosa.

Com a exceção da Inglaterra e da sua área de influência direta, a teocracia do Vaticano era perigosamente dominante. A ordem dos jesuítas promovia conspirações mortais contra reis. Ela usava métodos brutais de espionagem. Seus crimes provocavam revolta. Quando o carma do abuso amadureceu, a Ordem dos jesuítas passou a ser fechada em um país depois do outro, e por fim foi extinta oficialmente em todo o mundo pelo próprio Vaticano. No território luso-brasileiro, a administração do Marquês de Pombal marcou ao mesmo tempo a época do Iluminismo e a desgraça dos jesuítas. A Companhia de Jesus só foi reaberta várias décadas depois, já no século 19.

Do ponto de vista da doutrina esotérica dos ciclos, foi na última quarta parte do século 18 que começou a transição para a era de Aquário. A revolução francesa de 1789 proclamou ao mundo os ideais tipicamente aquarianos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. É compreensível, pois, que naquele momento histórico o livre-pensamento dos iluministas franceses desmistificasse a velha ideia medieval de um deus monoteísta, pessoal, manipulador, que abençoa guerras sangrentas e em nome do qual os cristãos ficam autorizados a mentir e matar.

A história humana avança em espiral. O Iluminismo do século 18 avançou até certo ponto. Cem anos depois dos enciclopedistas, o questionamento da ilusão monoteísta foi retomado fortemente por Helena Blavatsky e seus colaboradores a partir de 1875. O objetivo era libertar o pensamento ocidental das superstições da idade média, e o esforço acontecia sob a orientação direta de dois ou três raja-iogues dos Himalaias, conforme está amplamente documentado na literatura teosófica original. Não é por acaso que, ao comentar no final do século 19 a ideia de um deus monoteísta, um destes Mestres mencionava o barão d’Holbach. O instrutor escreveu:

“O Deus dos teólogos é simplesmente um poder imaginário, un loup garou [um bicho-papão], na expressão de d’Holbach. Nossa principal meta é libertar a humanidade deste pesadelo, ensinar ao homem a virtude pelo bem da virtude, e ensiná-lo a caminhar pela vida confiando em si mesmo, ao invés de depender de uma muleta teológica que por eras incontáveis foi a causa direta de quase toda a miséria humana”. [1]

O deus dos teólogos é portanto uma muleta e um pesadelo. Uma das metas do movimento teosófico é mostrar claramente este fato à humanidade. Em outra ocasião, o Mestre afirma :

“Estranhamente, descobri um escritor europeu – o maior materialista em sua época, o barão d’Holbach – cujos pontos de vista coincidem inteiramente com os da nossa filosofia. Ao ler o seu Sistème de la Nature, eu poderia ter imaginado que tinha o nosso livro de Kiu-te diante de mim”. [2]

Estas enfáticas afirmações do Mestre não deixam lugar a dúvida. Considerando que o livro de Kiu-te está fora do alcance do público e só é conhecido em parte e indiretamente mesmo pelos estudantes mais sérios de teosofia, a conclusão natural é que o pensamento de d'Holbach deve ser reconhecido como pelo menos muito importante para os que se interessam pela filosofia esotérica. No entanto, d'Hollback é ainda hoje quase completamente desconhecido. Como um pequeno estímulo e um primeiro passo na direção de preencher esta lacuna, traduzimos a seguir sete fragmentos expressivos da obra deste pensador. [3] As referências bibliográficas específicas vão ao final de cada trecho. Os subtítulos são nossos. Diz o barão d'Holbach:

1. Religião e Apego

* Na maior parte dos casos, os homens só se apegam à sua religião por hábito. Eles jamais examinam seriamente as razões pelas quais adotaram sua religião, nem os motivos da sua conduta, nem os fundamentos das suas opiniões. Desde modo, a coisa que eles consideram mais importante para eles tem sido sempre aquilo que eles mais temem aprofundar. Eles seguem o caminho que seus pais traçaram para eles. Eles crêem porque na infância lhes disseram que é necessário crer; eles têm esperança porque seus ancestrais tiveram esperança; eles tremem porque os seus antecessores tremeram; eles quase nunca se dignam a dar-se conta dos motivos da sua crença. […..] É assim que as opiniões religiosas, uma vez adotadas, se mantêm durante uma longa sequência de séculos. É assim que, era após era, os povos retransmitem ideias que jamais foram examinadas. Eles crêem que a sua felicidade está ligada a instituições que, se forem examinadas mais de perto, se revelarão como a fonte da maior parte dos seus males. A autoridade ainda vem em ajuda dos preconceitos dos homens; ela lhes impede de fazer o exame; ela os força à ignorância; ela está sempre disposta a punir todo aquele que tentar rejeitar a ilusão. […..] No entanto, nós encontramos em todos os séculos homens que, livres dos preconceitos dos seus co-cidadãos, ousaram mostrar a verdade. Mas o que pode a sua voz fraca contra os erros que são absorvidos desde a primeira infância, confirmados pelo hábito, autorizados pelo exemplo, e fortalecidos por uma política que é frequentemente cúmplice da sua própria ruína? As vozes imponentes da impostura reduzem logo ao silêncio aqueles que querem protestar em nome da razão. [ Da obra “Le Christianisme Dévoilé” (1761), edição de Londres, 1776, pp. 2-6.]


2. Superstição e Maus Hábitos

* É nos países em que a superstição tem mais poder que nós encontramos sempre os piores hábitos. A virtude é incompatível com a ignorância, a superstição, o escravismo. [...] Para a formação dos homens, para que se tenha cidadãos virtuosos, é preciso instruí-los, mostrar-lhes a verdade, falar-lhes através da razão, fazer com que sintam os seus interesses, para que aprendam a respeitar a si mesmos e a ter medo da vergonha. É preciso estimular neles a ideia de uma verdadeira honra, fazer com que conheçam o prêmio da virtude e os motivos de praticá-la. Como aprender estes efeitos da felicidade através de uma religião que os degrada, ou da tirania que busca apenas amansá-los, dividi-los, e mantê-los na indignidade? [Da obra “Le Système de la Nature”, edição Ledoux, 1821, volume 2, p. 352 .]

3. Religião Agressiva

* Uma religião cujos preceitos tendem a tornar os homens intolerantes, os reis perseguidores, e os súditos escravos ou rebeldes; uma religião cujos dogmas obscuros são motivo para eternas disputas; uma religião cujos princípios desencorajam os homens e os afastam da ideia de sonhar com seus verdadeiros interesses –; uma tal religião, digo eu, é destrutiva para o conjunto da sociedade. [“Le Christianisme Dévoilé” (1761), edição de Londres, 1776, p. 168.]

4. Os Crimes Autorizados por Deus

* Todas as religiões do mundo autorizaram crimes inomináveis. Os judeus, embriagados pelas promessas do seu Deus, atribuíram a si mesmos o direito de exterminar nações inteiras. Confiantes nos oráculos dos seus deuses, os romanos conquistaram e devastaram o mundo como verdadeiros assaltantes. Os árabes, encorajados por seu divino profeta, levaram o ferro e o fogo aos cristãos e aos idólatras. Os cristãos, sob o pretexto de divulgar sua santa religião, cobriram de sangue uma centena de vezes os dois hemisférios. [“Le Bon Sens du curé Meslier suivi de son Testament” (1772), edição Palais des thermes de Julien, p. 217.]

5. A Moral e as Virtudes

* Todas as virtudes que o cristianismo admira são exageradas e fanáticas, ou elas tendem apenas a tornar o homem tímido, indigno e infeliz ; se elas lhe dão coragem, ele se torna obstinado, altivo, cruel e nocivo à sociedade. É assim que ele deve ser, para corresponder à visão de uma religião que despreza a Terra, e que não vê problemas em trazer conflito a ela, para que o seu deus ciumento triunfe sobre os seus inimigos. Nenhuma moral verdadeira pode ser compatível com uma tal religião. [“Le Christianisme Dévoilé”, obra citada, pp. 139-140.]

6. A Fonte da Ética

* Basta que os homens reflitam um pouco sobre o que eles são, sobre os seus verdadeiros interesses, sobre a meta da sociedade, para que sintam que eles têm deveres em relação uns aos outros. Boas leis são o suficiente para forçá-los a serem bons, e eles não têm necessidade de que alguém faça as regras descerem do céu, para a sua preservação e a sua felicidade. A razão é suficiente para que percebamos os nossos deveres em relação aos seres da nossa espécie. Em que ela pode ser ajudada pela religião, que a todo momento a contradiz e a degrada? [“Le Christianisme Dévoilé”, obra citada, p. 98.]

7. Os Dois Pilares

* A ignorância e o medo; estes são os dois pilares de toda religião. [ “Le Bon Sens du curé Meslier suivi de son testament”, primeira edição 1772, edição Palais des thermes de Julien, 1802, p. 37.]

Até aqui, o barão d’Holbach.

É interessante comparar estas citações com uma das cartas mais importantes já recebidas dos Mahatmas. Diz o Mestre:

“É a crença em Deus e nos Deuses que faz de dois terços da humanidade escravos de um punhado daqueles que os enganam com o falso pretexto de salvá-los. O homem não está sempre pronto a cometer qualquer tipo de maldade se lhe disserem que seu Deus ou Deuses exigem o crime − vítima de um Deus ilusório, escravo abjeto de seus ministros astuciosos ? (.....) Durante dois mil anos a Índia gemeu sob o peso das castas, com os brâmanes engordando só a si mesmos com o melhor da terra, e hoje os seguidores de Cristo e Maomé estão cortando as gargantas uns dos outros em nome − e para maior glória − dos seus respectivos mitos. Lembre que a soma da miséria humana nunca será diminuída até aquele dia em que a parte melhor da humanidade destruir, em nome da verdade, da moralidade e da caridade universal, os altares dos seus falsos deuses.” [4]

Esta última frase constitui uma profecia significativa. É fácil perceber que a previsão do Mestre não só anuncia o futuro mas retoma – em um ciclo superior da espiral histórica – a mesma proposta básica dos enciclopedistas franceses. No início do século 21, mais de duzentos anos depois de d'Holbach, esta tarefa está por ser completada. A libertação do espírito humano será indispensável – se quisermos que se abra em nosso século o espaço necessário para a religião do futuro.

NOTAS :

[1] “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, Editora Teosófica, Brasília, edição em dois volumes. Ver Carta 88, vol. I, p. 55.
[2] Veja “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, obra citada, volume II, Carta 93B, p. 119. O livro de Kiu-te é uma coletânea de textos orientais esotéricos. Entre os seus principais elementos está “O Livro de Dzyan”, que serviu de base para a estrutura central da obra “A Doutrina Secreta”, de H.P. Blavatsky. (Sobre isso, ver “Collected Writings of HPB”, volume VI, p. 425)
[3] A fonte das citações de d’Holbach é a Wikipédia, e mais precisamente “Citations 'Paul Henri Thiry d’Holbach' sur Wikiquote, le recueil de citations libre”. Veja o endereço eletrônico: http://fr.wikiquote.org/wiki/Paul_Henri_Thiry_d'Holbach .
[4] “Cartas dos Mahatmas Para A. P. Sinnett”, obra citada, volume II, Carta 88, p. 61.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A Espada


espada-templarios


Por Madame Blavatsky

No mundo profano, tem-se o costume de considerar a espada como uma tradição essencialmente guerreira e portanto, motivo de temor. Não se pode contestar que existe um aspecto guerreiro neste símbolo; porém, seu sentido esotérico transcende seu caráter de violência e é encontrado em várias Ordens e crenças religiosas, tais como no Islamismo, Cristianismo, bem como na maior parte das demais tradições.

A própria tradição Hindu, que não poderíamos chamar de essencialmente guerreira, possui também esse símbolo, como cita-nos o Bhagavad-Gita. Segundo a Doutrina Islâmica, no domínio social, o uso da espada na guerra, é válida enquanto dirigida contra aqueles que perturbam a ordem e unicamente, com o objetivo de reconduzi-los a essa ordem.

É claro que por conta dessa premissa, muito sangue inocente já tingiu a terra; pois a decisão do que está fora ou dentro da “Ordem”, geralmente é decidida por extremistas, sejam muçulmanos, católicos, protestantes, etc. No entanto, este aspecto do uso da espada é o chamado pelos próprios Islamitas como “O menos essencial”.

Existe um outro aspecto em que ela simboliza a luta que o homem deve conduzir contra os “Inimigos da Luz” e contrários à ordem e à Unidade de Deus. A “guerra” sempre estabeleceu o equilíbrio e a harmonia (ou justiça) e assim, proporcionou a unificação de certo modo, dos elementos em oposição entre si.

Isso quer dizer que o seu fim normal e sem dúvida sua única razão de ser, é a paz que só pode ser verdadeiramente obtida pela submissão à vontade divina colocando cada elemento em seu lugar com a finalidade de fazê-los todos concorrerem para a realização consciente de um mesmo Plano.

Citando novamente a Tradição Islâmica, existe uma frase de seu Profeta, que era pronunciada toda a vez que o exército muçulmano voltava de uma expedição contra os inimigos exteriores:  -“RAJÂNA MIN EL JIHÂDIL-AÇGHAR ILA ‘L-JIDÂDILAKBAR”.  (Voltamos da Pequena Guerra Santa para a Grande Guerra Santa)

Se a guerra exterior era apenas a “Pequena Guerra Santa” é porque só tinha uma pequena e secundária importância, em face da “Grande Guerra Santa” que era a guerra interna travada dentro de cada um, contra seus próprios “demônios”. A Grande Guerra Santa, visa purificar o Templo Interior de cada Guerreiro.  É evidente, nessas condições, que tudo o que serve à guerra exterior, pode ser tomado como símbolo no que se refere à guerra interior, o que é o caso em particular e em especial, da espada.

Podemos acrescentar que a espada é em geral associada ao relâmpago ou considerada como derivada dele, o que representa de modo sensível, a forma bem conhecida da ESPADA DE LUZ OU FLAMEJANTE (se entender-mos que é o símbolo da Luz) ou, FLAMÍGERA (se entendermos que sua Luz é apenas reflexo da Luz do guerreiro que a empunha). Lembramos porém que, todo símbolo verdadeiro encerra sempre uma pluralidade de sentidos que longe de se excluírem ou de se contradizerem, harmonizam-se e complementam-se mutuamente; portanto, o assunto não está encerrado; apenas analisado sob alguns aspectos.

A espada representa também, o poder da palavra; do Verbo Divino ou de uma de suas manifestações. Quanto ao gume duplo, representa o duplo poder criador e destruidor desta “palavra”. Esse simbolismo é válido ainda para todo o conjunto de forças cósmicas, de modo que sua aplicação à palavra, é apenas um caso particular, mas que, em razão da concepção tradicional do Verbo e de tudo o que nela implica, pode ser tomado para representar em seu conjunto, todas as outras aplicações possíveis. A espada é associada também ao raio provocado pelas nuvens, ao raio solar e também (assim como a lança), ao eixo do mundo. A dualidade de seu gume por estar associada ao próprio sentido do eixo, refere-se mais diretamente às duas correntes inversas da Força Cósmica; ou, mais conhecidas como os Lados Claros e Escuros da Força.

Este simbolismo axial nos reconduz à idéia de harmonização concebida como “A Meta” da Guerra Santa, quer interior, quer exterior, pois o eixo é o lugar em que todas as oposições se reconciliam e desvanecem, entrando em equilíbrio perfeito. Assim, sob este ponto de vista, a espada não apenas representa um meio mas também o próprio fim a alcançar. Na Idade Média, a espada era o “Símbolo do Guerreiro”; a distinção máxima que alcançavam apenas os nobres de título ou profissão. O Bushidô ou Código do Guerreiro Japonês, ensinava que um Samurai deveria portá-la com sua lâmina, impecavelmente polida, o que significaria refletir em sua arma, sua própria alma, limpa e pura; sem nódoas e de forma alguma poderia temer a morte mais do que a desonra de um ato indigno ou covarde. Sua honra, formada pelo seu Bushidô, seria sua testemunha.

Aliás, esta premissa é, ditas em outras palavras, a primeira instrução ministrada ao Iniciado. O Guerreiros, tanto da Idade Média como atual, tinham e têm na espada, o seu símbolo máximo de honra; não porque seja uma arma que ceifa vidas humanas, mas porque é um símbolo utilizado em defesa de um Código de Honra fundamentado em ensinamentos de seu Templo ou Círculo Interno. A posse da espada, não significa de forma alguma o direito absoluto de uso indisciplinado ou sua ostentação arrogante. Um Samurai tinha o direito de decapitar um vassalo apenas para verificar se o seu Katana estava afiado; porém tinha também a obrigação de dar a própria vida em defesa destes mesmos homens que viviam sob sua proteção. Era a harmonia dos contrários.

Tanto nestas épocas remotas como em nossa atualidade, a partir do momento em que nosso Poderoso Círculo Interno de Força Luz e Poder, adquire o direito ao seu símbolo máximo, representado pela espada, torna-se na realidade, um Guerreiro da Luz, cuja sublime missão é projetar em sua lâmina translúcida de pureza, todo o seu Esplendor, tornando-se então um Guia, cuja missão principal é mostrar aos menos afortunados o verdadeiro caminho para o retorno à Unidade de Deus e toda a Glória de seu Templo. Cada Guerreiro, desde a Era Feudal até a de Aquário, deve desejar sua espada esforçando-se por merecê-la e quando houver atingido este objetivo, fazer jús à honra de possuí-la; pois, a partir deste momento, ele não será mais um homem comum. O Guerreiro e seu símbolo sintetizam de algum modo, os dois aspectos de “Tudo” em sua significação “Total”.

 

A CONSCIÊNCIA BÚDICA


C. W. Leadbeater

Publicado em The Theosophist

agosto de 1915

Todos os estudantes estão teoricamente familiarizados com a idéia do plano búdico e sua maravilhosa característica de unidade de consciência; mas a maioria deles provavelmente considera a possibilidade de obter qualquer experiência pessoal daquela consciência como algo pertencendo ao longínquo futuro. O completo desenvolvimento do veículo búdico para a maioria de nós ainda está distante, pois isso pertence ao estágio da Quarta Iniciação, a de Arhat; mas talvez não seja inteiramente impossível para os que ainda estão longe daquele nível obterem algum toque deste tipo superior de consciência de uma maneira bastante diferente.

Eu próprio me conduzi ao longo do que poderia descrever como a linha mais usual e comum de desenvolvimento oculto, e tive de abrir meu caminho acima laboriosamente, conquistando um subplano após o outro, primeiro no mundo astral, depois no mental, e então no búdico; o que significa que eu tinha um completo domínio de meus veículos astral, mental e búdico antes que qualquer coisa me sucedesse que eu pudesse definir com certeza como sendo uma verdadeira experiência búdica. Este método é lento e cansativo, ainda que eu pense que tem suas vantagens no desenvolvimento da acuidade de observação, assegurando-me de cada passo antes de dar o próximo. Não tenho quaisquer dúvidas de que foi o melhor para uma pessoa do meu temperamento; de fato, provavelmente foi o único caminho possível para mim; mas isso não implica que outras pessoas não possam ter oportunidades bem distintas.

Aconteceu-me no decorrer de meu trabalho de entrar em contato com diversas pessoas que estão empreendendo treinamento oculto; e talvez o fato que desponta mais proeminentemente de minha experiência nesta direção é a maravilhosa variedade de métodos empregados por nossos Mestres. O treinamento é tão intimamente adaptado ao indivíduo que nenhum é igual ao outro; não só cada Mestre tem seu próprio plano, mas o mesmo Mestre adota um esquema diverso para cada discípulo, e assim cada pessoa é conduzida exatamente ao longo da linha que lhe é mais adequada.

Um exemplo notável desta variabilidade de método chamou minha atenção não faz muito tempo, e creio que uma explanação dele pode talvez ser de utilidade para alguns de nossos estudantes. Deixe-me primeiro lembrá-los da estranha maneira invertida com que o Ego se reflete na personalidade; o manas superior, ou intelecto, reflete-se no corpo mental, a intuição, ou buddhi, se reflete no corpo astral, e o próprio espírito, ou atma, de algum modo corresponde ao físico. Estas correspondências se apresentam como três métodos de individualização, e desempenham suas funções em certos desenvolvimentos internos; mas até há pouco não havia me ocorrido que elas poderiam ser levadas em conta de modo prático em um estágio muito precoce por quem aspira por progresso oculto.

Um certo estudante de natureza profundamente afetiva desenvolveu (como seria correto e apropriado fazer) um intenso amor pelo instrutor que havia sido designado por seu Mestre para assisti-lo no treinamento preliminar. Ele desenvolveu uma prática diária de formar uma forte imagem mental daquele instrutor, e então derramar seu amor sobre ele com toda a sua força, inundando por conseguinte seu próprio corpo astral de carmesim, e temporariamente aumentando-o enormemente de tamanho. Ele costumava chamar este processo de “expandindo a sua aura”. Ele demonstrou uma aptidão tão notável neste exercício, e era-lhe tão obviamente benéfico, que um esforço adicional ao longo da mesma linha lhe foi sugerido. Recomendou-se-lhe que, mantendo a imagem claramente diante de si, e emitindo a força amorosa tão fortemente como sempre, tentasse elevar sua consciência a um nível superior e a unificasse com a de seu instrutor.

Sua primeira tentativa de fazer isso foi extraordinariamente bem-sucedida. Ele descreveu uma sensação de como se estivesse realmente subindo pelo espaço; ele encontrou o que supôs ser o céu como sendo um teto bloqueando seu caminho, mas a força de sua vontade parecia formar uma espécie de cone nele, que logo se tornou um tubo através do qual viu-se passando. Ele emergiu em uma região de luz ofuscante que ao mesmo tempo era um oceano de beatitude tão arrasadora que não poderia achar palavras para descrevê-lo. Não era em nada sequer semelhante ao que já havia antes sentido; arrebatou-o tão definitiva e instantaneamente como se uma gigantesca mão o tivesse agarrado, e infundido em toda sua natureza num instante uma corrente de eletricidade. Foi mais real do que qualquer outro objeto físico que jamais ele tivesse visto, e ao mesmo tempo, absolutamente espiritual. “Foi como se Deus tivesse me levado para dentro de Si, e eu senti a Sua Vida passando através de mim”, ele disse.

Ele gradualmente se recompôs e foi capaz de examinar sua condição; e ao fazê-lo começou a perceber que sua consciência já não estava mais limitada como havia estado até então – que ele estava de algum modo simultaneamente presente em cada ponto daquele maravilhoso mar de luz; na verdade, que de um modo inexplicável ele próprio era aquele mar, mesmo que aparentemente ao mesmo tempo ele fosse só um ponto flutuando nele. Pareceu-nos que ele estava tateando em busca de palavras para expressar a consciência que, como disse Madame Blavatsky tão bem, tem “seu centro em toda parte e sua circunferência em parte alguma”.

Uma percepção posterior lhe revelou que ele havia sido bem-sucedido na tentativa de unificar sua consciência à de seu professor. Ele viu-se integralmente compreendendo e compartilhando dos sentimentos do professor, e possuindo uma noção da vida muitíssimo mais larga e elevada do que jamais havia tido antes. Uma coisa que impressionou-o profundamente foi a imagem de si mesmo vista pelos olhos do professor; ela o encheu de uma sensação de indignidade, mas também de elevada determinação; como ele singularmente explicou.

“Eu me achei amando a mim mesmo através do intenso amor de meu instrutor por mim, e eu soube que eu poderia e me faria digno dele”.

Ele sentiu também uma profundidade de devoção e reverência que ele jamais havia alcançado antes; ele soube que ao tornar-se um com seu instrutor terreno ele havia também entrado no sacrário de seu verdadeiro Mestre, com quem era um, por sua vez, aquele professor, e ele vagamente sentiu-se em contato com uma Consciência de incompreensível esplendor. Mas aqui sua força faltou-lhe; ele pareceu deslizar de volta para dentro do tubo, e abriu seus olhos no plano físico.

Consultado a respeito desta experiência transcendente, eu a analisei minuciosamente, e convenci-me facilmente de que havia sido uma inquestionável entrada no mundo búdico, não através de penoso progresso através dos vários estágios do mental, mas por um caminho direto ao longo do raio de reflexão do subplano astral mais alto até o subplano mais baixo do mundo intuicional. Eu procurei por efeitos físicos, e constatei que não houve nenhum; o estudante estava em radiante saúde. Assim eu recomendei que ele repetisse o esforço, e tentasse com a mais profunda reverência pressionar ainda mais para o alto, e se elevasse, se assim pudesse ser feito, àquela Consciência Augusta. Pois eu vi que se tratava de um caso daquela combinação de dourado amor e vontade férrea que é tão raro de ocorrer em nossa Estrela Tristonha; e eu sabia que um amor que é completamente altruísta e uma vontade que não conhece obstáculos pode levar seu possuidor aos pés do próprio Deus.

O estudante repetiu este experimento, e novamente foi bem sucedido além de qualquer esperança ou expectativa. Ele foi capaz de entrar naquela Consciência mais vasta, pressionando para frente e para cima n’Ela como se nadasse num vasto lago. Muito do que trouxe de volta consigo ele não poderia compreender; reminiscências de glórias inefáveis, fragmentos de concepções tão vastas e tão deslumbrantes que nenhuma mente meramente humana poderia captá-las em sua totalidade. Mas ele ganhou uma idéia nova do que o amor e devoção poderiam ser – um ideal pelo qual esforçar-se pelo resto de sua vida.

Dia após dia ele continuou seus esforços (consideramos que uma vez por dia seria a freqüência máxima com que ele prudentemente poderia tentar); mais e mais ele penetrou naquele grande lago de amor, mas ainda não achou o seu fim. Mas gradualmente ele se tornou consciente de algo muito maior ainda; ele de algum modo percebeu que este esplendor indescritível era permeado por uma glória mais sutil mas inconcebivelmente ainda mais esplêndida, e tentou alçar-se até ela. E quando conseguiu, soube por suas características que era a Consciência do próprio grande Instrutor do Mundo. Ao tornar-se um com seu professor terreno ele inevitavelmente havia se unido à consciência de seu Mestre, ao qual aquele professor já estava unido; e nesta maravilhosa experiência ulterior ele estava apenas comprovando a estreita união que existe entre aquele Mestre e o Bodhisattva, que por sua vez O ensinara. Naquele mar ilimitado de Amor e Compaixão ele mergulha diariamente em sua meditação, com uma elevação e fortalecimento tais para si como prontamente pode ser imaginado; mas ele jamais pode alcançar seus limites, pois nenhum mortal pode medir um oceano como aquele.

Tentando penetrar sempre mais fundo neste novo reino estupendo que tão subitamente se abrira para ele, ele conseguiu um dia alcançar um desenvolvimento adicional – uma beatitude tão mais intensa, um sentimento tão mais profundo, que pareceu-lhe a princípio tão superior como aquele primeiro toque de consciência búdica estivera acima de suas experiências astrais anteriores. Ele disse: “Se eu não soubesse que me é impossível ainda atingi-lo, eu diria que isso deve ser o Nirvana”.

Na verdade era apenas o próximo subplano do búdico – o segundo de baixo para cima, e o sexto de cima para baixo; mas sua impressão é significativa por mostrar que a consciência não só se expande ao subirmos, mas a razão em que se expande aumenta rapidamente. Não só o progresso é acelerado, mas a razão desta aceleração cresce em progressão geométrica. Agora este estudante atinge aqueles subplanos elevados diária e comumente, e está trabalhando com vigor e perseverança esperando avançar ainda mais além. E o poder, o equilíbrio e segurança que isso introduz em sua vida física diária é algo espantoso e belo de se ver.

Um outro fenômeno que ele observa, acompanhando isso, é que a intensa beatitude daquele plano superior agora persiste além do tempo de meditação e mais e mais está-se tornando parte de toda a sua vida. No começo esta persistência era só de uns vinte minutos após cada meditação; então chegou a uma hora; depois duas horas; e ele confiante olha à frente vislumbrando um tempo em que será uma posse permanente – uma parte de si mesmo. Uma característica notável do caso é que esta prodigiosa exaltação diária não é seguida de nenhum sinal da mais leve que seja reação de depressão, mas em vez produz uma radiância solar crescente.

Tornando-se gradualmente mais acostumado a atuar neste mundo mais elevado e glorioso, ele começou a olhar para si em alguma extensão, e logo foi capaz de identificar-se com muitas outras consciências menos exaltadas. Ele as achou existindo como pontos dentro de seu eu expandido, e descobriu que focalizando a si mesmo em quaisquer destes pontos ele poderia de imediato perceber as mais altas qualidades e aspirações espirituais da pessoa que representavam. Buscando uma simpatia mais completa com alguém que ele conhecia e amava, ele discerniu que estes pontos de consciência eram também, como ele disse, buracos através dos quais ele poderia colocar-se dentro de seus veículos inferiores; e assim ele entrou em contato com aquelas partes de suas vidas e disposições que não poderiam encontrar expressão nenhuma no plano búdico. Isto lhe deu uma simpatia por estas suas características, uma compreensão de suas fraquezas, que foi realmente notável, e que não poderia provavelmente ter sido adquirida de nenhum outro modo – uma qualidade valiosíssima para o trabalho de um discípulo no futuro.

A unidade maravilhosa daquele mundo intuicional se manifestava a ele em exemplos insuspeitados. Um dia, segurando na mão o que ele considerava um pequeno objeto especialmente formoso, parte do qual era branco, ele caiu numa espécie de êxtase de admiração por sua forma graciosa e harmônica coloração. Subitamente, através do objeto, enquanto o olhava, ele viu desdobrar-se diante dele uma paisagem, exatamente como se o pequeno objeto houvesse se tornado uma janelinha, ou talvez um cristal. A paisagem é uma que ele conhece bem e ama, mas não havia uma razão óbvia pela qual o pequeno objeto devesse tê-la trazido para diante dele. Uma característica curiosa era que a parte branca daquele objeto era representada no céu de sua imagem. Impressionado por este fenômeno inteiramente inesperado, ele tentou a experiência de elevar sua consciência enquanto deleitava-se na beleza do panorama. Ele teve a sensação de passar através de algum meio resistente para dentro de um plano superior, e percebeu que a vista diante dele havia se transformado em uma que lhe era estranha, mas ainda mais bela que a que ele conhecia tão bem. As colunas de nuvens brancas haviam se tornado uma alta montanha coberta de neve, com seu longo perfil mergulhando abaixo num mar de cor mais rica que qualquer um que nesta encarnação havia visto. As baías rochosas, as construções, a vegetação, eram-lhe de todo estranhas, ainda que bem conhecidas por mim; e por uma cuidadosa pesquisa eu logo me certifiquei sem margem de dúvida que a cena que ele estava vendo era o que eu suspeitara – um panorama físico real, mas milhares de quilômetros distante do local de onde ele o contemplava. Uma vez que aquele lugar santo está muitas vezes em minha mente, ainda que eu certamente não estivesse pensando nele no momento, o que o estudante viu pode ter sido uma forma-pensamento minha. Eu imagino que neste ponto o que ocorreu pode ser descrito com muita simplicidade. Eu presumo que a emoção do estudante estivesse excitada pela admiração, e que as vibrações aceleradas que eram originadas desta maneira puseram em operação seus sentidos astrais, e isto o tornou capaz de ver um panorama que não era fisicamente visível, mas estava bem ao alcance astral. A tentativa de pressionar mais além temporariamente abriu o sentido mental, e através deste poder ele foi capaz de ver minha forma-pensamento.

Mas o estudante não se quedou satisfeito com isso; ele repetiu sua tentativa para subir ainda mais alto, ou (como ele diz) ainda mais fundo no real significado de tudo isso. Uma vez mais ele teve a experiência de irromper em um estado de matéria mais exaltado e refinado; e desta vez não havia cena terrestre alguma para recompensar seus esforços, pois o cenário desdobrou-se em um universo ilimitável cheio de massas de esplêndidas cores, pulsando com vida gloriosa, e a montanha nevada tornou-se um grande Trono Branco mais vasto que qualquer montanha, velado em deslumbrante luz dourada. Um estranho fato ligado a esta visão é que o estudante a quem esta experiência ocorreu está inteiramente desfamiliarizado com as Escrituras Cristãs, e não era ciente de qualquer texto que pudesse ter alguma influência no que vira. Eu lhe perguntei se poderia repetir esta experiência à vontade; ele não o sabia, mas mais tarde ele tentou o experimento, e conseguiu novamente passar através daqueles estágios na mesma ordem, dando alguns detalhes adicionais da paisagem estrangeira que me provaram que isto não era meramente uma proeza da memória; e desta vez o atemorizado vidente sussurrou que em meio às fulgurâncias daquela luz ele uma vez teve um fugaz vislumbre do contorno de uma Poderosa Figura que assentava-Se no Trono. Isto também, diríamos, poderia ser uma forma-pensamento, construída por algum Cristão de imaginação vívida; mas quando alguns dias depois surgiu uma oportunidade, e eu perguntei a um Sábio qual o significado que poderíamos associar a tal visão, Ele replicou:

“Você não vê que, já que só existe Um Amor, então só existe Uma Beleza? O que quer que seja formoso, em qualquer plano, o é somente porque se remontamos muito acima, sua conexão se torna manifesta. Toda a Beleza é de Deus, assim como todo o Amor é de Deus; e através deles, Suas Qualidades, o puro de coração pode sempre alcançá-lo.”

Nossos estudantes fariam bem em ponderar nestas palavras, e seguir a idéia nelas contida. Toda a beleza, seja de forma ou cor, seja na natureza ou na moldura humana, em altas conquistas da arte ou no mais humilde utensílio doméstico, não passa de uma expressão da Beleza Única, e portanto mesmo na coisa mais insignificante que seja bela toda a beleza está implicitamente contida, e assim através dela toda a beleza pode ser percebida, e Aquele que em Si é a própria Beleza pode ser alcançado. Para entendermos isso plenamente necessitamos da consciência búdica pela qual nosso estudante chegou a esta percepção; mas mesmo em níveis muito inferiores a idéia pode ser útil e frutífera.

Admito plenamente que o estudante cujas experiências relatei seja excepcional – que ele possui uma força de vontade, um poder de amar, uma pureza de coração e um completo altruísmo que são, infelizmente, raros.

Não obstante, o que ele fez com tão marcado sucesso pode seguramente ser copiado em alguma medida por outros menos dotados. Ele desdobrou sua consciência num plano que normalmente não é atingido por aspirantes; lá ele está construindo rapidamente para si um veículo muito capaz e valioso – pois este é o significado da persistência sempre crescente da sensação de felicidade e poder. Que esta é uma linha definida de progresso, e não um mero exemplo isolado, é evidenciado pelo fato de que mesmo já o desenvolvimento búdico anormal está produzindo seu efeito sobre os corpos causal e mental aparentemente negligenciados, estimulando-os à atividade de cima em vez de deixá-los ser influenciados laboriosamente a partir de baixo como o usual. Todo este sucesso é resultado de contínuo esforço ao longo da linha que eu descrevi.

“Ide e fazei o mesmo”. Nenhum mal pode advir a qualquer homem derivado de um esforço diligente para aumentar seu poder de amar, seu poder de devoção, e de seu poder de apreciar a beleza; e com tal esforço é possível pelo menos que ele possa atingir um progresso com que sequer sonhou. Somente seja lembrado que, neste caminho como em qualquer outro, o crescimento é conseguido só por quem o deseja não só por si, mas por amor ao serviço. O esquecimento do eu e um ávido desejo de ajudar os outros são as mais proeminentes características no estudante cuja história interior eu contei aqui; estas características devem ser igualmente proeminentes em qualquer um que aspire seguir seu exemplo; sem elas nenhuma consumação semelhante é possível.


Tradução: Ricardo Frantz

 

Fraternalmente,
Osmar de Carvalho\
Coordenador da Loja Esotérica Virtual